Truyen3h.Co

isso mesmo

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7. A situação dos estrangeiros no Brasil do Estado Novo era delicada.
A impressão era que estavam sob vigilância permanente. Dos jovens
antropólogos de Columbia que trabalhavam no país no final dos anos 30,
Ruth Landes foi provavelmente a que mais sentiu na pele o clima de
ignorância e o horror, uma vez que estava envolvida pessoal e
profissionalmente com os intelectuais baianos perseguidos, presos e
intimidados pelo regime sob a acusação de serem comunistas. Foram eles
que facilitaram o seu acesso aos rituais de candomblé, objeto da sua
pesquisa. A correspondência dela com Ruth Benedict é reveladora. Numa
carta de maio de 1938, Landes menciona à orientadora ter recebido
"notícias pesarosas" de Quain — que estava retido em Cuiabá com umainfecção no ouvido — mas que ele próprio revelaria mais detalhes a
Benedict em carta a ser remetida pela Bolívia por razões de segurança.
Landes se desculpa pela linguagem "um tanto canhestra", explicando que é
obrigada a escrever dessa maneira também por razões de segurança. A
prostração de Quain se devia em especial às dificuldades que enfrentava
para chegar ao Xingu sem as devidas autorizações. Sua expedição solitária
aos Tramai terminaria com uma convocação expressa de volta ao Rio de
Janeiro nos seguintes termos: "De conformidade com a recomendação do
Senhor Tenente-Coronel Vicente de Paulo Teixeira da Fonseca
Vasconcelos, Chefe do Serviço de Proteção aos índios, venho, por este
meio, vos convidar para retirardes da aldeia dos índios tramai onde vos en-
contrais, visto como a vossa permanência ali constitui infração ao
regulamento daquele Serviço. Saúde e fraternidade, Álvaro Duarte
Monteiro, Inspetor Regional do Ministério do Trabalho, interino". Em
carta a Ruth Benedict, Heloísa Alberto Torres se explica: "Certos
equívocos da parte do sr. Quain foram interpretados pelo Serviço como
infrações à lei e levaram este órgão a impor-lhe condições estritas se ele
desejar prosseguir com suas pesquisas nas aldeias indígenas". Castro Faria
diz que essa era a praxe: "Até eu, que era membro-delegado do Conselho
de Fiscalização na expedição do Lévi-Strauss, precisava de um salvo-
conduto".
Numa carta de março de 1939 a Ruth Benedict, Landes diz que vive
num "estado de absoluta solidão emocional" depois de "duas semanas de
horror". Menciona uma carta anterior em que teria relatado à orientadora a
"história de espionagem na Bahia": "Se você não a recebeu, ela deve ter se
'extraviado', mais ou menos deliberadamente".
Às vésperas da guerra, havia também um forte sentimento
antiamericanista no ar, e os jovens antropólogos de Columbia, já muito
desconfiados e suscetíveis aos métodos do regime, se sentiam ainda mais
acuados, desamparados e solitários. Landes conta que, no Rio, a pressão e
o temor chegaram a um ponto em que "nós três (Buell, Chuck e eu)
tivemos de ir com dona Heloísa à polícia para conseguir algum tipo de
identificação para os rapazes".
Se é que Buell Quain já tinha alguma coisa a esconder, a situação
política só lhe dava ainda mais razões para a dissimulação e a preservação
quase paranóica da sua vida pessoal. Na carta que escreveu a Ruth Landes,
na manhã em que se preparava para deixar Carolina rumo à aldeia krahô,ele a aconselha a desconfiar de tudo: "Estou preocupado com as suas
relações com dona Heloísa. Você provavelmente vai dizer que eu não devo
me meter onde não sou chamado. Mas acho que você deve lhe retribuir os
favores fazendo-se de humilde na frente dela, evitando dizer coisas que
soem como crítica antipática ao Brasil, fingindo se interessar pelo trabalho
dos acadêmicos brasileiros, e até mesmo deixando-a pensar que é a
orientadora da sua pesquisa. É claro que daria para você passar
despercebida no Rio de Janeiro e dar andamento ao seu trabalho sem
prestar contas a ninguém. Mas uma vez que dona Heloísa já a conhece, ela
vai continuar curiosa em relação a você. E se você vier a ter mais
problemas, ela pode ser útil. Ela realmente tem influência. Há muito
antagonismo aos Estados Unidos por aqui. As pessoas es-carnecem da
política de boa vizinhança de Roosevelt. Um intelectual a quem fui
indicado por dona Heloísa escreve panfletos. Um deles tem asserções do
tipo: 'Se a Alemanha invadir o Brasil, os Estados Unidos nos defenderão,
mas não há ninguém para nos proteger do imperialismo americano'. É
muito difícil para mim refutar essas coisas em português. Normalmente,
faço cara de estúpido e deixo para lá".
Perguntei a Castro Faria sobre a repercussão do suicídio de um
jovem etnólogo americano em meio a esse estado de coisas. "Não creio que
o suicídio dele tenha tido alguma repercussão nacional. Não sei nem
localmente quais foram as reações. A morte no interior é muito diferente
do que a que acontece aqui. Foi inteiramente imprevisto, apesar de todas as
excentricidades dele, que eram faladas. Sobretudo a coisa do dinheiro, de
ocultar a possibilidade que ele tinha de resolver todos os problemas
econômicos com recursos dele e da família. O suicídio não foi
traumatizante para nenhum de nós. Foi surpreendente. O Quain foi um
acidente na história da antropologia e nas relações entre o Museu Nacional
e a Universidade Columbia. Mas as relações continuaram sem problemas."
O clima de desconfiança nas relações com os antropólogos
americanos ganhou contornos mais específicos no caso de William
Lipkind. Dona Heloísa preferia abertamente Quain e Wagler. "Eles são
mais bem-educados, mais bonitos e mais charmosos", explicava Ruth
Landes numa carta a Rutli Benedict. Para completar, Lipkind era cheio de
si e chegou a fazer barganhas com dona Heloísa por um melhor preço pelo
material indígena que trazia das aldeias graças à ajuda dela, o que obvia-
mente muito a irritou. "Falava-se que o William Lipkind tinha deixado o
nome bastante comprometido, porque ele fazia relatórios políticos para osamericanos. Isso é de ouvir falar, mas parece que num dos relatórios que
escreveu sobre os Karajá havia uma menção a informações que ele deveria
prestar ao Departamento de Estado. Parece que ele desempenhou — e
muitos americanos desempenharam — uma função de observador", disse
Castro Faria.

8. Isto é para quando você vier. Se é que realmente quer saber. Ao
sairmos da festa, eu me adiantei e convidei o dr. Buell a passar em casa.
Ele mal me reconheceu. Perguntei se estava apreensivo com a partida no
dia seguinte. Tentou recusar o meu convite. Eu insisti. Aceitou por
cerimônia, por não dominar os códigos do lugar, por não saber quem eu
era. Estava cansado. Bebemos e conversamos. Era preciso que nos
conhecêssemos. Foi a primeira noite. Perguntei se era a primeira vez que
visitava uma aldeia. Ele riu. Aquilo serviu de provocação. Sentiu-se
ofendido e não parou mais de falar. Falou dos Trumai, e eu os imaginei.
Tudo o que ele contou daí em diante eu procurei imaginar. Se faço as
contas, vejo que foram apenas nove noites. Mas foram como a vida toda. A
primeira, na véspera de sua partida para a aldeia. Depois, mais sete
durante a sua passagem por Carolina em maio e junho, quando vinha à
minha casa em busca de abrigo, e a última quando o acompanhei pelo
primeiro trecho de sua volta à aldeia, quando pernoitamos no mato,
debaixo do céu de estrelas. A última noite foi por minha conta. Ele não
havia requisitado a minha companhia, mas senti que devia acompanhá-lo
a cavalo, nem que fosse apenas no primeiro trecho do percurso, como se
de alguma maneira soubesse o que àquela altura não podia saber, que
nunca mais o veria. O que agora lhe conto é a combinação do que ele me
contou e da minha imaginação ao longo de nove noites. Foi assim que
imaginei o seu sonho e o seu pesadelo. O paraíso e o inferno. Na primeira
noite, ele me falou de uma ilha no Pacífico, onde os índios são negros. Me
falou do tempo que passou entre esses índios e de uma aldeia, que chamou
Nakoroka, onde cada um decide o que quer ser, pode escolher sua irmã,
seu primo, sua família, e também sua casta, seu lugar em relação aos
outros. Uma sociedade muito rígida nas suas leis e nas suas regras, onde,
no entanto, cabe aos indivíduos escolher os seus papéis. Uma aldeia onde
a um estranho é impossível reconhecer os traços genealógicos, as famílias
de sangue, já que os parentes são eletivos, assim como as identidades. O
paraíso, o sonho de aventura do menino antropólogo. Queria estudar
zoologia, mas bastou um semestre na universidade para ter a revelação da vida por vir. Não sei o quanto você conheceu dele. Será demais lembrá-lo
de que, em março de 1931, depois de passar pelos primeiros exames, e
para comemorar o final do semestre, ele pegou um ônibus com alguns
colegas até Chicago, onde beberam até cair e foram ao cinema? Como
uma palavra de Deus, ele não podia esperar por aquilo. E até a noite em
que me contou ainda não sabia o quanto havia do efeito da bebida no que
viu. Na escuridão da sala de cinema, a luz de prata se acendeu na tela e
uma vida impensada se descortinou diante dele, uma nova possibilidade e
uma saída, como se um caminho inexplorado se abrisse à sua frente. Não
fazia idéia do filme a que assistiria quando entrou no cinema, assim como
não fazia idéia do destino que ali lhe era apresentado. Assistiu vidrado a
uma história de amor no Pacífico Sul. A um amor proibido pelas leis de
uma sociedade de nativos. Um amor condenado pelos deuses. Um tabu.
Até a noite em que me contou suas lembranças, não sabia o quanto havia
do efeito daquele amor proibido na própria vocação. Ao sair do cinema,
lembrava-se apenas dos corpos dos nativos delineados pelo sol e pela
água, as gotas de prata, como pérolas, nos corpos refletidos de sol contra
o céu. Iria ao encontro deles. Saiu do cinema determinado. Já não falava
com ninguém. Seus colegas não viam o que ele via. O mundo ficou
diferente. O mundo já não era ali. Estava em outro lugar. E preciso
entender que cada um verá coisas que ninguém mais poderá ver. E que
nelas residem as suas razões. Cada um verá as suas miragens. Trancou a
matrícula da faculdade e embarcou, como aprendiz de marinheiro, num
cargueiro para Xangai.
Passou seis meses fora. Deu duro. Voltou como "marinheiro de
primeira classe".
Queria ver as ilhas do Pacífico Sul, a ilha encantada de um filme, as
gotas de prata de um amor proibido. Não sei o quanto conheceu dele,
muito mais que eu, não tenho dúvidas, mas seria demais lhe dizer que o dr.
Buell, meu amigo, bebeu comigo e me contou que procurava entre os
índios as leis que mostrariam ao mesmo tempo o quanto as nossas são
descabidas e um mundo no qual por fim ele coubesse? Um mundo que o
abrigasse? A gota de prata de um tabu. Em Xangai ele conheceu um rapaz
chinês que queria deixar a China para sempre. O dr. Buell lhe falou da
América como de um sonho. E, na sua ingenuidade, achou que pudesse
ajudar o chinês a realizar o sonho dele, como ele próprio já estava
decidido a realizar o seu. Prometeu o que não podia. O sonho de uns é a
realidade dos outros. E o mesmo pode ser dito dos pesadelos. Conseguiu fazer com que o rapaz embarcasse clandestinamente no navio.Mas não
que chegasse à América. Foi descoberto, expulso e castigado no primeiro
porto, sob os olhos horrorizados do seu jovem benfeitor americano. Não
descartava a hipótese de que o tivessem matado, por ter se misturado com
os brancos. O sonho é um ponto de vista. E um lugar de onde se vê. Mas
por mais que ele me falasse de Fiji e de Vanua Levu, a sua ilha no
Pacífico Sul, eu não conseguia ver. Era como se os dez meses que ele
tinha vivido por lá não passassem mesmo de um sonho. O que ele me
contava se desmanchava como as nuvens. E eu não conseguia imaginar.
Não podia conceber que a aldeia em que morou, por estar situada numa
ilha, não fosse à beira-mar, mas no interior, a caminho das montanhas. Os
olhos não podem ver. Quando ele mostrava aos jovens nativos da ilha
revistas ocidentais com fotografias que os mais velhos não teriam podido
nem ao menos compreender, sempre lhe perguntavam se as pessoas
retratadas eram homens ou mulheres. Para me ajudar a ver, quando
voltou a Carolina em maio, trouxe uma fotografia e um desenho que havia
feito de próprio punho. Eram retratos de dois negros muito fortes, que
posavam para ele com o torso nu e o olhar distante.
Posso não ter imaginado o paraíso, mas o inferno eu pude ver. O
pesadelo é um jeito de encarar o medo com olhos de quem sonha. Quando
me falava dos Trumai, eu o ouvia falar do medo. Passou quatro meses
entre eles, entre agosto e novembro de 1938. Até ser chamado de volta ao
Rio, em dezembro. Foi de Cuiabá a Simões Lopes de caminhão, e depois
por mais seis dias em lombo de burro pela mata, e depois por mais uma
semana em três canoas pelo Coliseu até a missão mantida por um casal de
americanos, o reverendo Thomas Young e a mulher, cujos nomes eu
reconheci entre as cartas que ele deixou ao se matar. Dois homens brancos
e um menino o ajudaram com as canoas. O dr. Buell remava uma delas. No
final do segundo dia, com o cair da noite, uma das canoas se encheu de
água e eles tiveram que parar e estender a bagagem molhada sobre uma
pedra. Só no dia seguinte se deram conta de que o sol mal atingia a pedra.
Estavam dentro da floresta. Mas, apesar do vento, só no quinto dia é que
tiveram de enfrentar verdadeiras correntezas. Uma das canoas bateu contra
uma pedra, e os mantimentos foram carregados pelo rio.
9. Em carta de 1º
de novembro de 1940 a Heloísa Alberto Torres, a
mãe de Quain conta a história dos missionários do rio Coliseu. A falta de quinino, e com os homens morrendo de malária, os americanos começaram
a rezar. "Foi quando viram um homem com a cabeça raspada, calças
esfarrapadas e uma velha jaqueta vindo do rio na sua direção. Acharam que
fosse um prisioneiro em fuga, até que ele lhes sorriu." No delírio do seu
pesadelo, devem ter visto um condenado com correntes nos pés e nas
mãos, saindo de dentro de algum pântano da Louisiana ou do Mississippi.
Ou pelo menos foi assim que imaginei as visões febris e apavoradas dos
pobres missionários quando li a carta da mãe do etnólogo. Segundo ela,
Quain lhes teria dado um novo remédio, que, como por milagre, logo os
tirou daquele estado — o que, aos olhos dessa gente, fez dele naturalmente
uma espécie de salvador enviado em resposta às preces e à fé dos de-
sesperados. O jovem antropólogo teria obtido o medicamento e por sorte o
incluíra na sua bagagem depois de a mãe ter lido um artigo numa revista
médica e lhe mandado o recorte para o Rio de Janeiro. De alguma forma,
nem que fosse à distância, ela tentava ser útil e acompanhar os desígnios
do filho em sua descida aos infernos. No final de 1940, ainda atormentada
pela morte de Buell e tateando no seu luto em busca de uma resposta,
Fannie Dunn Quain foi a Chicago assistir a uma palestra dos missionários
Thomas e Betty Young no Moody Institute. A palestra foi ilustrada por
fotos tiradas por Buell entre os Tramai. O mais provável, porém, é que, ao
se apresentar e cumprimentá-los entre os outros convidados, ela não tenha
lhes perguntado nada, em parte por constrangimento, em parte por temer
que lhe revelassem o que não podia ouvir. E possível que, dez anos depois,
tenha morrido sem chegar a perguntar nada a ninguém. Preferia acreditar
que não soubessem o que ela também não podia saber. Depois da morte do
filho, manifestou mais de uma vez na correspondência com dona Heloísa a
vontade de recompensar os índios, ajudá-los com o dinheiro que Buell
deixara. Sua insistência atormentada dá a impressão de que tentava, ainda
que inconscientemente, sob um véu de fi-lantropia, comprar o silêncio dos
índios ou subornar a própria consciência.
Quain passou três semanas com os missionários antes de continuar
rio abaixo, por território de tribos inimigas, até a aldeia. Os Trumai que o
acompanhavam cantavam durante a noite e se calavam com o nascer do
sol. O clima de animosidade e terror entre as diversas tribos da região os
obrigava a acender fogueiras sempre que entravam em "território
estrangeiro", para anunciar a sua presença. As surpresas e os encontros
inesperados deviam ser evitados a todo custo, sob pena de provocar trá-
gicos incidentes e mal-entendidos. Na viagem pelo Coliseu, a simples visão de uma canoa kamayurá era motivo de preocupação. Quain chegou à
aldeia trumai em meados de agosto. A região era das mais inacessíveis e
isoladas, às margens do rio Culuene, na confluência com o Coliseu. O
acesso à área pelo rio Xingu é impossível devido às cachoeiras. Temidos
no passado pelo número e pela coragem guerreira, os Trumai estavam
reduzidos a uma única aldeia de quatro ocas e uma quinta em construção.
Eram dezessete homens, dezesseis mulheres e dez crianças. Instalaram-se
ali fazia dois anos, basicamente porque tinham medo, acuados, com o
objetivo de se afastarem de tribos inimigas, em especial dos Kayabi e dos
Nahukwá, cujo chefe era um poderoso xamã. Seus antepassados já haviam
sido expulsos dessa mesma região pelos Suyá. Mas agora os Trumai
temiam sobretudo os Kamayurá, seus vizinhos mais próximos, que no pas-
sado chegaram a raptar todas as moças da aldeia e que também tentaram
amedrontar Quain, dizendo que o poderoso xamã, chefe dos Nahukwá,
viria pegá-lo. Na realidade, quando por fim se encontraram, o chefe
kamayurá tratou Quain com despeito e aparente indiferença. No fundo,
estava ressentido pelo fato de o antropólogo ter escolhido permanecer entre
os desprezíveis Trumai e não na aldeia kamayurá. Os Kamayurá
inventavam histórias e lendas para acirrar o clima de terror. Tinham uma
sensibilidade muito aguçada para a maldade psicológica. E de alguma
forma devem ter percebido a vulnerabilidade psíquica do antropólogo,
tanto que jogavam com a sua solidão e com o seu equilíbrio delicado,
dizendo que o pai dele estava chegando de avião com muitos presentes
para os Trumai ou que um avião cheio de brancos havia pousado na missão
de Thomas Young no rio Coliseu. Por outro lado, os Trumai também
pioravam o estado de histeria com as próprias lendas. Acusavam os
Kamayurá de, entre outras coisas, torturar seus prisioneiros e depois comer
seus miolos. "Há uma expectativa permanente de que os Suyá e os
Kamayurá ataquem à noite — basta um galho quebrado depois do cair da
noite para levar os homens a se agruparem, com seus arcos e flechas,
trêmulos, no centro da aldeia", Quain escreveu a Ruth Benedict.
Duas vezes entrevistei Lévi-Strauss em Paris, muito antes de me
passar pela cabeça que um dia viria a me interessar pela vida e pela morte
de um antropólogo americano que ele conhecera em sua breve passagem
por Cuiabá, em 1938. Muito antes de eu ouvir falar em Buell Quain. Numa
das entrevistas, a propósito de uma polêmica sobre o racismo e a xenofobia
na França, em que tinha sido mal interpretado, Lévi-Strauss reafirmou a
sua posição: "Quanto mais as culturas se comunicam, mais elas tendem ase uniformizar, menos elas têm a comunicar. O problema para a
humanidade é que haja comunicação suficiente entre as culturas, mas não
excessiva. Quando eu estava no Brasil, há mais de cinqüenta anos, fiquei
profundamente emocionado, é claro, com o destino daquelas pequenas
culturas ameaçadas de extinção. Cinqüenta anos depois, faço uma
constatação que me surpreende: também a minha própria cultura está
ameaçada".
Dizia que toda cultura tenta defender a sua identidade e originalidade
por resistência e oposição ao outro, e que havia chegado a hora de defender
a originalidade ameaçada da sua própria cultura. Falava da ameaça do islã,
mas podia estar falando igualmente dos americanos e do imperialismo
cultural anglo-saxão.
O que mais ameaçava os Trumai quando Quain os visitou não eram
os brancos. Já não tinham a disposição de resistir aos demais grupos
indígenas locais. Ficavam acuados diante do outro. Apesar de todo o medo,
a maioria dos contatos entre as tribos da região era amistosa, mesmo se
pontuados por eventuais intimidações e roubos por parte dos visitantes,
sobretudo quando os anfitriões eram os enfraquecidos Trumai, que não
reagiam. Os Trumai sempre tentavam agradar seus visitantes, mesmo os
que os ameaçavam e desprezavam, como os Kamayurá. Travaram o
primeiro contato com os brancos em 1884. Por ocasião de sua expedição
ao Brasil central, Von den Steinen foi alertado por outras tribos sobre os
perigosos Trumai do alto Xingu, na época considerados belicosos em
relação aos estrangeiros, já que viviam em guerra com seus vizinhos. Mas,
assim como ocorreu com o pioneiro explorador alemão, não foi essa a
experiência de Quain. Uma vez estabelecidos os primeiros contatos, ambos
foram recebidos com toda a amabilidade pelos mirrados e temidos Trumai.
Na realidade, essa hospitalidade era causada mais pelo temor dos vizinhos
do que por algum código de etiqueta. No início, a convivência não foi fácil
para o jovem etnólogo de Columbia.
Chamavam-no Capitão. Ao chegar, raspou a cabeça e as
sobrancelhas, para a perplexidade dos seus anfitriões, já que a prática é
considerada um costume suyá. Logo roubaram todas as suas roupas,
cobiçadas como proteção contra os mosquitos, e ele teve de improvisar
"trajes sumários" com um mosquiteiro. Mal falava a língua, e não entendia
as relações de parentesco e a organização social da aldeia. (Além do núcleo
familiar consangüíneo, os índios estabelecem entre si relações simbólicas de parentesco, que servem para organizar a sociedade, suas interdições e as
obrigações de cada indivíduo. Nessas relações de "parentesco
classificatório" se manifestam a lei e a lógica dessas sociedades. O
parentesco passa a ser um código extremamente complexo, cujo principal
objetivo é evitar o incesto em comunidades predominantemente
endogâmicas e às vezes reduzidas a algumas dezenas de indivíduos.)
Quando Quain tentava conversar com os índios, eles lhe pediam que
cantasse as canções com as quais os entretivera no início, antes que
soubesse exatamente como se comportar ou o que fazer. "Eles se recusam a
expressar termos de parentesco — o que impede o meu entendimento da
regulação do incesto", relatou na mesma carta a Benedict, mas só bem mais
tarde, nas minhas conversas com os Krahô a propósito do suicídio do
antropólogo, é que eu iria atrelar a essa frase o peso das minhas suspeitas,
infundadas ou não.
O fato é que no começo Quain achou os Trumai "chatos e sujos"
("Essa gente está entediada e não sabe"), o contrário dos nativos com quem
convivera em Fiji e que transformara num modelo de reserva e dignidade.
Julgava os Trumai por oposição a sua única outra experiência de campo:
"Dormem cerca de onze horas por noite (um sono atormentado pelo medo)
e duas horas por dia. Não têm nada mais importante a fazer além de me vi-
giar. Uma criança de oito ou nove anos parece já saber tudo o que precisa
na vida. Os adultos são irrefreáveis nos seus pedidos. Não gosto deles. Não
há nenhuma cerimônia em relação ao contato físico e, assim, passo por
desagradável ao evitar ser acariciado. Não gosto de ser besuntado com
pintura corporal. Se essas pessoas fossem bonitas, não me incomodaria
tanto, mas são as mais feias do Coliseu". O etnólogo comparava os
mirrados Trumai aos homens musculosos de Fiji, que ele havia retratado
em seus desenhos e fotografias. Ainda na carta a Benedict, ele diz: "Minha
doença me deixa especialmente angustiado e inseguro em relação ao
futuro", sem especificar do que está falando.
Dois meses e meio depois, já estava integrado. E assim se permitia
recusar os pedidos incessantes dos índios, como quando estava deprimido e
queriam que cantasse. A violência física não era permitida na aldeia,
sobretudo contra as crianças, e Quain por duas vezes quase desencadeou
uma comoção social ao bater na mão de um menino que lhe roubava
farinha e ao pisar sem querer no pé de outro. Os conflitos, em geral ligados
ao sexo e ao adultério, ou eram substituídos por práticas de feitiçaria ou se
resolviam em representações catárticas, em que os envolvidos descarregavam suas diferenças emocionais por meio de ações simbólicas
numa espécie de teatro improvisado no centro da aldeia. Volta e meia o
etnólogo via os mais jovens em abraços ou jogos sexuais. Para evitar que
os índios deitassem em sua rede, dizia a todos os que o procuravam com
esse pedido que sua "mulher ficaria zangada" se soubesse. Não havia
virgens na aldeia. Para afastar as mulheres que o visitavam, ameaçava estu-
prá-las, e elas logo fugiam, em geral às gargalhadas. Estava completamente
só.
10. Isto é para quando você vier. A ele, só restava observar, que em
princípio era a única razão da sua presença entre os Trumai. Quando
chegou aqui, estava cansado desse papel. Mas também tinha horror da
idéia de ser confundido com as culturas que observava. Me contou que,
entre os nativos com que convivera na sua ilha da Melanésia, não podia
haver pior desgraça para um rapaz do que ser acusado de espreitar as
mulheres. Era um sinal de infantilidade: diziam dos que espreitavam que
não eram capazes de alcançar a satisfação sexual pelas vias de fato. Ele
estava cansado de observar, mas nada podia lhe causar maior repulsa do
que ter que viver como os índios, comer sua comida, participar da vida
cotidiana e dos rituais, fingindo ser um deles. Tentava manter-se afastado
e, num círculo vicioso, voltava a ser observador. Me falou das crianças
Trumai como exceção, das quais se aproximou na tentativa de
compreender os seus jogos, e entre elas, talvez por uma estranha afinidade
decorrente do lugar incomodo que ele próprio ocupava na aldeia,
justamente como observador, logo percebeu um órfão de dez ou doze anos
que era mantido a margem. Era um desajustado. 0 único ali que, como ele,
não tinha família. Nunca participava das lutas que os outros meninos
organizavam. Como não havia meninas adolescentes, os jogos sexuais
aconteciam entre meninos ou entre meninos e homens, quase sempre por
iniciativa dos primeiros, que os adultos não reprimiam. Observou que o
órfão tinha um interesse especial por esses jogos. Costumava procurar os
homens mais velhos, que não o rechaçavam. Não sei se esse menino
também o procurou e por isso me contava a história, mas outro garoto,
logo depois da primeira ereção, compareceu uma noite a casa do dr.
Buellpara se vangloriar e certa vez chegou a copular com uma menina, sob
os olhos do antropólogo, de propósito, para se mostrar, sabendo que era
observado. 0 sexo assombrava a solidão do meu amigo. Também parece ter
ficado impressionado, tanto que me contou, ainda naquela primeira noite depois da festa em Carolina, que na passagem para a idade adulta, como
um rito de iniciação, os meninos trumai tinham o corpo inteiro esfolado
com uma pata afiada de tatu. Era uma prova de coragem, uma recompensa
e uma honra, embora muitos, apavorados e horrorizados, chorassem de dor
durante o sacrifício, cobertos de sangue. Entre os Trumai, as cicatrizes
eram muito admiradas. Os meninos de sete anos expunham com orgulho as
marcas que as cerimônias lhes deixavam pelo corpo. Foi quando, para
minha surpresa, ele abriu a própria camisa e me mostrou uma cicatriz que
ia da barriga ao peito. Sorriu e esperou a minha reação, mas eu não sabia o
que dizer. Como se tivesse ficado decepcionado com a minha expressão
atônita, ou como se o meu espanto o tivesse despertado ou trazido de volta
depois de um lapso de consciência, abotoou a camisa e me disse, lacônico,
que tinha sido operado na infância e que já era tarde, precisava ir embora.
Nunca mais tocou no assunto. Tudo isso ele me contou naquela primeira
noite quando nem nos conhecíamos. E hoje, ao lembrar das palavras do dr.
Buell, só me vem á cabeça a imagem do seu corpo enforcado, cortado com
gilete no pescoço e nos braços, coberto de sangue, pendurado sobre uma
poça de sangue, que foi como os índios o encontraram e o descreveram ao
chegarem à minha casa. Me lembro ainda de ele ter comentado, perplexo,
que os Trumai, apesar de estarem em vias de extinção, continuavam
fazendo abortos e matando recém-nascidos. E que, talvez sem saber,
estivessem cometendo um suicídio coletivo, vivendo um processo coletivo
de autodestruição, já que, ao contrário de outras tribos, não tinham quase
nenhum contato com os brancos, não conheciam nada além dos rios
Coliseu e Culuene, e não sofriam nenhum processo de aculturação, embora
fossem subjugados pelos Kamayurá e em parte assumissem a cultura deles.
Além dessa forma coletiva e inconsciente, ele me disse que não observou
nenhum caso de suicídio propriamente dito durante a sua breve estada
entre os Trumai. O curioso é que, ao ser obrigado a interromper o trabalho,
tivesse se esquecido de lhes fazer justo essa pergunta: se houvera alguma
vez um suicídio entre eles. Em todo caso, ficou com o sentimento de que
tinham o temperamento suicida e estavam prontos para se matar. "O
importante", ele me disse ainda na primeira noite em Carolina, sem que eu
pudesse entender do que realmente falava, "é que os Trumai vêem na
morte uma saída euma libertação dos seus temores e sofrimentos." Uma
vez em que havia caído doente, um de seus amigos índios se ofereceu para
esfaqueá-lo com o intuito beneficente de livrá-lo da dor da doença. Não era
ã toa que matavam os recém-nascidos. Pior era nascer. Ele me disse: "Uma
cultura está morrendo ". Agora, quando penso nas suas palavras cheias de entusiasmo e tristeza, me parece que ele tinha encontrado um povo cuja
cultura era a representação coletiva do desespero que ele próprio vivia
como um traço de personalidade. E compreendo por que quisesse tanto
voltar aos Trumai e ao inferno que me relatou. Como se estivesse cego por
algum tipo de obstinação. Queria impedir que desaparecessem para
sempre. O livro que escreveria sobre eles seria uma forma de mantê-los
vivos, e a si mesmo.
Quando ele falava da coragem dos índios, eu só o ouvia falar do
medo. Ele falava coragem e eu ouvia medo. Duas semanas depois de sua
chegada aos Trumai, ele presenciou uma cerimônia de cura. A mulher do
chefe da aldeia estava doente e ate' então nenhum remédio tinha sido
eficaz. Os índios decidiram fazer o ritual. Os homens se fecharam numa
das casas, em torno da doente. A cerimônia era proibida às mulheres.
Quando o dr. Buell tentou entrar, a irmã do chefe lhe disse que, como
elas, ele morreria se pisasse ali dentro. Mas ele a ignorou e entrou assim
mesmo. Houve outra ocasião em que lhe falaram da morte, deixando,
porém, que tirasse as próprias conclusões. Durante uma caçada em que
procuravam aves para tirar-lhes as penas, disseram-lhe que um pássaro de
cabeça vermelha a que chamavam "lê" era o anúncio da morte para quem o
visse. Pouco depois ele deparou com a aparição fatídica e preferiu acreditar
que lhe pregavam uma peça. Não disse nada, embora no íntimo tenha
ficado muito impressionado, a ponto de ter sonhado mais de uma vez com
a mesma ave dali para a frente. Acordava ofegante e coberto de suor.
Perguntou o que eu achava dos sonhos. E antes que eu pudesse responder,
disse que os Trumai consideram os sonhos uma forma de ver dormindo. E
comum que as crianças acordem aos berros no meio da noite. Seus
pesadelos são estimulados pelas angústias dos pais a espera de um ataque
inimigo. Numa noite, logo no primeiro mês depois de sua chegada, ele
acordou com os gritos das mulheres. Todas correram, com suas crianças e
redes, para um dos lados da aldeia. Ele achou que estavam sendo atacados
por outra tribo. Na correria, alguém lhe disse — ou foi assim que ele en-
tendeu — que uma mulher fora baleada. Quando assentou a poeira,
descobriu que havia sido um torrão de argila que a assustara. As mulheres
tinham ainda mais razões do que os homens para temer os ataques. Sabiam
que um dos principais motivos da guerra era capturá-las. Os Trumai viviam
num estado de terror permanente. Eu disse ao dr. Buell que alguns índios
têm o costume de jogar pedras quando se aproximam das casas das
fazendas, o que pode ser um sinal de amizade. Ele me respondeu que talvez tivessem realmente sido visitados naquela noite pelos Suyá, que
eram temidos pela ferocidade sem igual. Segundo os Trumai, o sol criou
todas as tribos, a exceção dos Suyá, descendentes das cobras. Toda a aldeia
trumai quis dormir na pequena casa que construíram em uma semana para
o dr. Buell, porque ele tinha uma pistola. Volta e meia lhe pediam que
atirasse contra a escuridão que cercava a aldeia, para afastar os inimigos.
Mesmo se a intenção dos Suyá fosse boa, o medo dos Trumai não os
deixaria percebê-la como amistosa. Bastava falar nos Suyá para que os
Trumai entrassem em pânico. A vida era insegurança, que sempre
aumentava à noite. O menor estalido no escuro provocava verdadeiro caos.
Num dia de tempestade cuja escuridão se confundiu com a noite,
acometido de febre, ele sentiu o horror que afligia os Trumai. Apesar de
eles não ligarem para o sobrenatural, como os Kamayurá, temiam raios e
trovões. Achavam que alguém estava contrariando a chuva. Durante a pri-
meira tempestade tropical que presenciou na aldeia, o dr. Buell recebeu a
visita esbaforida de Aloari, seu assistente e cozinheiro, que vinha lhe
implorar que apagasse o lampião e parasse de trabalhar, pois assim estava
irritando a chuva. Foi diferente naquele dia de febre em que a tempestade
fez o dia virar noite. Viu dois olhos à porta da sua cabana. Não eram os
olhos fundos de Aloari, com seus lábios grossos e os cabelos desgrenhados
cortados em forma de cuia. Eram olhos ardentes soltos no nada, como se
boiassem na matéria viscosa da escuridão e da chuva. E ele disse apenas:
"Os olhos de uma pessoa que eu conheci". Para mim, o pesadelo era
imaginar a viagem de volta, os trinta e oito dias de barco a subir os rios por
terras inimigas na apreensão de flechas traiçoeiras, e depois a pé e de
caminhão por quilômetros e mais quilômetros de poeira e terra. Era o que
ele teria que enfrentar, dei-xando para trás aquele fim de mundo, embora
só quisesse ficar e seguisse contrariado, coagido pelo Serviço de Proteção
aos Índios a sair imediatamente das terras indígenas. Durante a viagem de
volta,' quando ele subia os rios, no dia 7 de novembro de 1938, um eclipse
de pouco mais de uma hora fez a lua desaparecer do céu logo depois de ter
surgido. Os índios que o acompanhavam disseram que não podiam
prosseguir enquanto não espantassem o mal que estava comendo a lua.
Primeiro, pediram que ele atirasse para o alto. Depois, dançaram e
atiraram flechas para o céu. Um dos índios decidiu voltar, temendo ser
assassinado pelos brancos. Por fim, o chefe ficou de pé e falou longamente
com a lua, até ela reaparecer do nada.

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