Capítulo 11
Dormir foi uma tentativa mal executada.
Passei mais tempo encarando o teto do que realmente fechando os olhos. Sempre que achava que o cansaço ia vencer, alguma frase do contrato voltava para minha cabeça com a delicadeza de uma porta batendo. Doze meses. Imagem pública. Confidencialidade. Suporte emergencial. Amanhã, às seis.
Agora já era amanhã.
Quando desci para tomar café, a casa estava silenciosa demais para uma manhã de domingo. Isaac ainda dormia, e mamãe estava sentada à mesa com uma xícara entre as mãos, olhando para o nada como se tivesse passado a noite inteira no mesmo lugar.
Talvez tivesse.
— Bom dia — falei, puxando uma cadeira.
Mamãe ergueu os olhos para mim. Havia olheiras discretas sob a maquiagem leve, e o cabelo preso às pressas deixava claro que a Helena Avelar impecável da noite anterior tinha ficado no salão junto com os arranjos de flores.
— Bom dia, filha.
A palavra filha me atingiu de um jeito estranho. Não suavizou minha raiva, mas lembrou que ela ainda era minha mãe. E isso tornava tudo pior, porque eu queria culpá-la sem sentir culpa por isso.
Elisa apareceu com café fresco e uma cesta de pães, mas percebeu o clima antes de dizer qualquer coisa alegre. Deixou tudo sobre a mesa e saiu com a discrição de quem já aprendeu que algumas manhãs não devem ser interrompidas.
Peguei uma xícara e servi café, mesmo sabendo que meu estômago não estava interessado em nada.
— Eu marquei com ele ao meio-dia — disse.
Mamãe apertou a xícara com as duas mãos.
— Com Caio?
— Não conheço muitos homens propondo casamento contratual em salas reservadas.
Ela baixou os olhos.
— Você não precisava falar com ele sozinha.
— Eu também não precisava descobrir o tamanho das dívidas por um contrato, mas aqui estamos.
A frase saiu mais seca do que eu planejei. Mamãe recebeu em silêncio, e por alguns segundos só o vapor do café pareceu existir entre nós.
— Eu vou com você — ela disse.
Levantei os olhos.
— Não vai.
— Serena...
— Mamãe, ontem todo mundo falou por mim. Hoje eu vou falar.
Ela ficou quieta, e vi que queria insistir. A diferença era que, dessa vez, eu não daria espaço.
— Eu ainda não aceitei nada — continuei envolvendo a xícara com as mãos. — Vou ouvir. Vou impor condições. Vou entender até onde esse homem acha que pode entrar na minha vida.
— E se ele não aceitar suas condições?
Soltei uma risada baixa, sem humor.
— Então talvez o senhor Meirelles descubra que nem toda família em crise aceita ser empurrada para qualquer porta aberta.
Mamãe me olhou por tempo demais.
— Ele não é um homem simples, Serena.
— Eu percebi.
— Não estou falando só de dinheiro.
Meu corpo ficou um pouco mais atento, mas mantive a expressão no lugar.
— Então está falando do quê?
Mamãe pareceu escolher as palavras com cuidado. Esse cuidado já me irritou antes mesmo da resposta.
— Caio é o tipo de pessoa que calcula antes de entrar em qualquer situação. Se ele fez essa proposta, é porque já pensou em todas as consequências.
— Ótimo. Eu também vou começar a pensar nas minhas.
Antes que ela respondesse, passos apareceram perto da entrada da cozinha. Marina surgiu usando a mesma roupa confortável que tinha colocado depois da gala, o cabelo preso de qualquer jeito e a cara de quem também não tinha dormido direito. Ela tinha ficado em casa depois de avisar o marido que não conseguiria ir embora deixando tudo daquele jeito.
— Por favor, me digam que ontem foi um pesadelo estranho causado por champanhe caro — ela disse, puxando uma cadeira.
— Foi real — respondi.
Marina suspirou e se sentou ao meu lado.
— Que péssima notícia.
Mamãe tentou sorrir, mas não conseguiu.
Marina olhou para mim, depois para a xícara intacta na minha frente.
— Você vai encontrar ele hoje?
— Meio-dia.
— E vai sozinha?
— Vou.
Ela abriu a boca, mas ergui a mão antes que começasse.
— Eu sei. É uma ideia ruim. Obrigada pela preocupação.
Marina apoiou os cotovelos na mesa.
— Eu ia dizer para você não usar nada que ele mandou.
Levei a mão aos brincos por impulso, só então percebendo que ainda não tinha tirado. O metal frio tocou meus dedos, e a irritação veio junto, rápida e familiar.
— Droga.
Marina apontou para mim.
— Está vendo? Péssimo sinal.
Tirei os brincos devagar e coloquei sobre a mesa. As pedras azul-escuras brilharam contra a madeira clara, bonitas demais para algo que eu queria odiar com facilidade.
Mamãe observou o gesto em silêncio.
— Hoje eu vou escolher cada detalhe sozinha — falei, mais para mim do que para elas.
Marina pegou um pão da cesta e mordeu sem a menor delicadeza.
— Finalmente uma frase sensata.
Olhei para minha irmã.
— Você está comendo em um momento de crise?
Ela mastigou antes de responder.
— Eu dormi fora de casa, deixei meu marido preocupado e acordei para descobrir que Caio Meirelles continua existindo. Alguém nessa família precisa manter energia para odiar esse homem com qualidade.
Pela primeira vez desde a noite anterior, quase ri de verdade.
Quase.
Mas o celular vibrou sobre a mesa antes que a sensação durasse. A tela acendeu com uma mensagem de um número desconhecido.
"Endereço enviado. Meio-dia."
Sem nome.
Sem cumprimento.
Sem pergunta.
Marina inclinou o corpo para ler e fez uma careta.
— Ele é sempre assim?
Peguei o celular, encarando a mensagem.
— Infelizmente, acho que sim.
Logo abaixo, outra mensagem apareceu.
"E, Serena, venha com suas condições prontas. Não gosto de perder tempo."
Apertei o celular entre os dedos e senti a raiva acordar de vez.
— Ótimo — murmurei, levantando-se da mesa. — Então hoje ele vai aprender a gastar um pouco.
Subi para o quarto tentando ignorar a sensação de que cada degrau me levava para mais perto de uma decisão que eu ainda não tinha coragem de chamar pelo nome.
A primeira coisa que vi ao entrar foi a caixa azul-escura sobre a penteadeira. Os brincos já não estavam em mim, mas a presença deles continuava ali, bonita demais para ser ignorada e incômoda demais para ficar à vista. Peguei a caixa, abri a gaveta do closet e a empurrei para o fundo, atrás de algumas peças que eu quase nunca usava.
— Hoje, não — murmurei, fechando a gaveta.
Abri o closet e encarei as roupas por mais tempo do que deveria. Não queria parecer frágil, mas também não queria vestir a Serena da gala de novo. Aquela versão tinha sido construída para sorrir diante de investidores e esconder rachaduras sob cetim azul-marinho. Para Caio, eu precisava de outra coisa.
Escolhi uma calça de alfaiataria escura, uma blusa clara de tecido leve e um blazer ajustado. Simples. Elegante. Sem excesso. Prendi o cabelo em um rabo baixo e deixei a maquiagem mínima, apenas o suficiente para disfarçar a noite mal dormida.
Quando me olhei no espelho, não vi alguém pronta. Vi alguém tentando parecer difícil de mover. Talvez bastasse por enquanto.
Peguei a bolsa e desci. Marina estava na sala, falando baixo ao telefone. Pelo tom, imaginei que fosse Paulo. Ela dizia que iria para casa mais tarde, que estava tudo bem, embora nada naquela manhã pudesse ser chamado assim sem ofender a verdade.
Mamãe estava perto da janela, com os braços cruzados. Virou quando me ouviu entrar.
— Você tem certeza de que quer ir sozinha? — ela perguntou.
— Não tenho certeza de quase nada hoje, mamãe. Mas disso eu tenho.
Ela assentiu devagar, mesmo sem gostar da resposta. Marina desligou o telefone e veio até mim, ainda segurando o celular.
— Paulo mandou dizer que, se precisar de advogado, ele conhece alguns.
Olhei para ela.
— Isso deveria me tranquilizar?
Marina guardou o celular no bolso.
— Era para soar útil.
— Soou levemente criminoso.
— Estamos todos nos adaptando.
Quase sorri, mas a sensação passou rápido. Peguei o celular e abri novamente a mensagem de Caio. O endereço já estava ali desde cedo, seco e direto, como tudo que parecia vir dele. O prédio ficava em uma região nobre da cidade, longe o bastante da nossa casa para parecer escolha calculada e perto o suficiente do centro empresarial para lembrar quem ele era.
Marina inclinou o corpo para olhar a tela.
— Que lugar é?
— Um prédio comercial.
— Claro. Porque pedir uma conversa em um café comum seria humano demais.
— Homens como Caio Meirelles devem ser alérgicos à normalidade.
Mamãe não riu. Aproximou-se e tocou meu braço com cuidado.
— Serena, cuidado com o que você mostra para ele.
Encarei minha mãe por alguns segundos.
— Hoje eu estou mais preocupada com o que ele acha que já sabe.
Ela baixou os olhos, e eu senti que havia mais uma resposta presa ali. Uma dessas que ela segurava para depois, como se o depois ainda fosse um lugar seguro para guardar verdades. Mas eu não perguntei. Não naquele momento.
Marina me acompanhou até a porta.
— Me liga quando chegar.
— Marina...
— Não é pedido. É cláusula familiar.
— Vocês começaram a gostar dessa palavra rápido demais.
Ela ajeitou a gola do meu blazer, como tinha feito com meu cabelo na noite anterior. O gesto me deixou mais vulnerável do que eu gostaria.
— Vai lá e coloca aquele homem no lugar dele.
Respirei fundo e abri a porta.
— Estou começando a achar que ele comprou todos os lugares disponíveis.
Marina abriu um sorriso pequeno.
— Então inventa um novo.
Saí antes que aquela frase me desse coragem demais. No caminho até o carro, apertei a chave entre os dedos e olhei para o céu claro de domingo. A cidade parecia tranquila demais para alguém prestes a discutir os termos de um casamento falso antes do almoço.
Entrei no carro, coloquei o endereço no GPS e toquei de leve na bolsa ao meu lado.
— Certo, Serena — falei para mim mesma, ligando o motor. — Vamos descobrir quanto custa dizer não.
O trajeto foi mais silencioso do que eu esperava. Não liguei o rádio. Não atendi nenhuma ligação. Apenas segui as instruções do GPS enquanto tentava organizar as condições que colocaria diante de Caio Meirelles. Se ele queria transformar minha vida em contrato, então teria que lidar com as minhas cláusulas também.
Quando parei diante do prédio, entendi que ele não tinha escolhido aquele lugar por acaso.
A fachada espelhada refletia o céu limpo, e a entrada era discreta, sem placas chamativas, sem qualquer tentativa de parecer acessível. Havia apenas segurança, vidro escuro e uma sensação incômoda de que tudo ali tinha sido feito para deixar pessoas do lado de fora.
Com a bolsa pendurada no ombro, saí do carro e caminhei até a recepção. Antes que eu dissesse meu nome, a mulher atrás do balcão levantou os olhos.
— Senhorita Avelar?
Parei por um segundo.
Claro.
Caio Meirelles já tinha avisado que eu viria.
Endireitei os ombros e segurei a bolsa com mais firmeza.
— Sim.
A recepcionista me entregou um cartão de acesso com um sorriso educado.
— Último andar. O senhor Meirelles está esperando.
Olhei para o elevador ao fundo, as portas metálicas refletindo minha imagem de um jeito frio demais. Eu ainda não tinha aceitado nada. Ainda não tinha assinado nada. Ainda podia sair dali entrar no carro e fingir que aquele domingo não existia.
Mas o contrato estava dentro da bolsa.
E, de alguma forma, Caio já estava me esperando antes mesmo que eu chegasse.
Entrei no elevador.
Quando as portas se fecharam, olhei para meu reflexo e respirei fundo.
— Não abaixa a cabeça — murmurei.
O elevador começou a subir.
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