Capítulo 12
O elevador subiu rápido demais.
A cada número que acendia no painel, eu tentava organizar as frases que tinha ensaiado no carro, mas elas pareciam menos firmes agora que eu estava dentro de um prédio escolhido por Caio Meirelles, indo até o último andar como se tivesse sido convocada.
Não gosto dessa palavra.
Convocada.
Apertei a alça da bolsa e obriguei meus dedos a relaxarem logo depois. Se eu chegasse até ele parecendo tensa, Caio perceberia. E, pelo pouco que eu já tinha entendido, aquele homem parecia colecionar pequenas reações como se fossem informações úteis.
Quando o elevador parou, as portas se abriram para um corredor silencioso, revestido em tons escuros e iluminação discreta. Não havia barulho de telefones, passos apressados ou pessoas falando alto. Tudo ali parecia calculado para lembrar que dinheiro não precisava fazer esforço para ser notado.
Uma mulher de cabelo preso e postura impecável aguardava perto da recepção do andar.
— Senhorita Avelar — ela disse, com um sorriso educado. — O senhor Meirelles está à sua espera.
Claro que estava.
— Obrigada — respondi, mantendo a voz tranquila.
Ela me guiou por um corredor com paredes de vidro fosco. Do outro lado, vi salas fechadas, mesas vazias e uma cidade inteira espalhada pelas janelas enormes. O prédio parecia funcionar em silêncio, como se até o domingo tivesse pedido permissão para existir ali dentro.
— Ele costuma marcar reuniões de domingo? — perguntei.
A mulher olhou para mim de relance, sem perder o passo.
— O senhor Meirelles não costuma seguir horários comuns.
— Que surpresa.
Ela pareceu não saber se eu esperava uma resposta, então apenas continuou andando. Ótimo. Pelo menos alguém naquele lugar ainda tinha instinto de sobrevivência.
Paramos diante de uma porta dupla de madeira escura. A secretária bateu duas vezes antes de abrir.
— Senhor Meirelles, a senhorita Avelar chegou.
Entrei antes que ela terminasse de falar, porque esperar autorização me pareceu perigoso demais naquele contexto. A sala era ampla, mais fria do que bonita, com uma mesa grande perto das janelas e poucas coisas fora do lugar. Nenhuma foto pessoal. Nenhum objeto que dissesse algo sobre ele além do óbvio: controle, dinheiro e uma irritante falta de esforço.
Caio estava de pé, olhando pela janela, com uma das mãos no bolso. Usava camisa clara, mangas dobradas até o antebraço e uma calma que parecia ofensiva para um domingo antes do almoço.
Ele virou devagar.
— Serena.
Meu nome saiu da boca dele com a mesma tranquilidade da noite anterior, como se entre nós não existisse um contrato absurdo, uma família encurralada e um prazo correndo até as seis.
Fechei a porta atrás de mim.
— Senhor Meirelles.
O olhar dele passou por mim com atenção controlada. Não como os homens olhavam em eventos. Não avaliando roupa ou aparência. Ele parecia ler escolhas: o blazer simples, a ausência dos brincos, a bolsa presa no meu ombro.
— Veio preparada.
— O senhor pediu condições prontas.
— Pedi.
Caminhei até a frente da mesa sem esperar convite para me sentar. Também não sentei. Ficar em pé parecia uma forma pequena, quase ridícula, de não entrar completamente no cenário que ele tinha montado.
Caio percebeu.
— Prefere negociar de pé?
— Prefiro não me acomodar em lugares onde ainda não decidi ficar.
O canto da boca dele se moveu de leve.
— Justo.
— Que bom que ainda reconhece alguma coisa.
Ele deixou a janela e caminhou até a mesa, mantendo distância suficiente para parecer educado. Isso me irritou quase tanto quanto se ele tivesse se aproximado demais.
— Trouxe o contrato? — Caio perguntou.
Toquei a bolsa com a ponta dos dedos.
— Trouxe minhas condições.
— Melhor ainda.
Abri a bolsa, tirei o contrato e coloquei sobre a mesa. Em seguida, apoiei uma folha dobrada ao lado dele. Tinha escrito durante a manhã, entre café frio, raiva e vontade de não aparecer ali.
Caio olhou para a folha, mas não tocou.
— Quantas?
— O suficiente para o senhor perceber que eu não assino minha vida em branco.
Ele ergueu os olhos para mim.
— Nunca achei que assinaria.
— Não? Porque a sua proposta parecia bem confiante.
— Confiança não é o mesmo que pressa.
Apoiei as mãos na borda da mesa e inclinei levemente o corpo para frente.
— Então ótimo. Vamos sem pressa. Primeira condição: eu não vou ser tratada como peça decorativa em uma estratégia de mercado.
Caio sustentou meu olhar.
— Continue.
A calma dele não me surpreendeu.
Mas a atenção, sim.
Caio puxou a cadeira atrás da mesa e se sentou, como se tivesse todo o tempo do mundo. A postura dele não era relaxada, mas também não carregava esforço. Era como se negociar vidas alheias antes do almoço fosse apenas mais um compromisso comum em sua agenda.
Eu continuei de pé.
Ele percebeu, claro. Mas, dessa vez, não comentou.
— Primeira condição — repeti, tocando a folha que eu tinha levado. — Eu não vou ser tratada como enfeite. Se esse acordo envolve a imagem da minha família, eu participo das decisões públicas. Nada de notas, eventos, entrevistas ou qualquer aparição sem que eu saiba antes.
Caio inclinou levemente a cabeça.
— Aceito.
A rapidez da resposta me incomodou.
— Não vai nem fingir que precisa pensar?
— Não quando a condição é razoável.
Cruzei os braços.
— Que generoso.
— Que prático — ele corrigiu.
Ignorei o comentário e continuei.
— Segunda: Isaac fica fora disso. Completamente. Nome, escola, rotina, qualquer informação sobre ele. Ele não aparece em fotos, não participa de evento e não vira peça de narrativa familiar.
O olhar de Caio mudou por uma fração mínima de segundo. Não chegou a ser surpresa, mas foi a primeira reação que eu consegui arrancar dele desde que entrei naquela sala.
— Seu irmão é menor de idade — ele disse. — Eu não tinha intenção de envolvê-lo.
— Intenções não são suficientes para mim.
— Então coloque no contrato.
— Eu vou.
Ele apoiou os antebraços na mesa.
— Aceito.
Anotei mentalmente a resposta, mesmo sem confiar nela por completo. Caio aceitava rápido demais, e pessoas que aceitavam rápido demais quase sempre tinham guardado a parte difícil para depois.
— Terceira: minha mãe e minha irmã também ficam fora das obrigações de imagem. Se em algum momento elas aparecerem, será por escolha delas. Não por exigência sua.
— Aceito, desde que eventos essenciais envolvendo o nome Avelar não sejam prejudicados.
— Quem define essencial?
— Nós dois.
Soltei uma risada curta.
— Essa palavra fica muito conveniente na sua boca.
— E muito útil na sua.
A resposta dele veio calma, mas acertou porque não era totalmente mentira. Se eu queria espaço dentro daquele acordo, precisaria aceitar que algumas palavras serviriam de arma para os dois lados.
Peguei a caneta na bolsa e marquei um ponto ao lado da condição.
— Quarta: eu continuo trabalhando no Grupo Avelar.
Caio ficou quieto por um segundo. Foi pouco, mas suficiente para eu saber que finalmente tinha chegado em algo que ele não pretendia aceitar de imediato.
— Isso complica.
— Para quem?
— Para a narrativa.
— A minha vida não é uma narrativa.
— Para o mercado, é.
Apoiei as mãos na mesa e encarei Caio sem desviar.
— Então o mercado vai aprender a ler melhor. Eu não vou abandonar a empresa da minha família para posar de esposa satisfeita ao seu lado.
Caio não pareceu irritado. Isso me irritou por nós dois.
— Se você continuar atuando diretamente no Grupo Avelar, qualquer decisão sua será analisada como extensão do acordo comigo.
— Melhor do que todos acharem que fui comprada junto com as dívidas.
Ele sustentou meu olhar por alguns segundos, e o silêncio entre nós deixou de ser vazio. Havia cálculo ali. Não só dele. Meu também.
— Você entende que, a partir do momento em que esse contrato for assinado, cada escolha sua terá peso público? — ele perguntou.
— Eu entendo que minhas escolhas já têm peso. A diferença é que agora o senhor quer colocar seu sobrenome nelas.
Caio tocou a ponta da caneta sobre a mesa, mas ainda não escreveu nada.
— Você pode continuar trabalhando — ele disse por fim. — Com algumas limitações.
— Que tipo de limitações?
— Determinadas negociações passarão por análise conjunta.
— Análise conjunta ou aprovação sua?
— Serena.
— Senhor Meirelles.
O nome dele pareceu atravessar a sala como uma pequena disputa que nenhum dos dois queria admitir. Caio recostou na cadeira, sem tirar os olhos de mim.
— Análise conjunta — ele respondeu. — Se eu quiser aprovação unilateral, vou escrever aprovação unilateral.
— Que honesto.
— Eu costumo ser claro.
— Claro não é o mesmo que confiável.
Pela primeira vez, o canto da boca dele se ergueu de verdade. Não foi um sorriso inteiro. Foi pior. Uma reação pequena demais para ser simpática e precisa demais para parecer involuntária.
— Você veio mesmo disposta a dificultar.
— Eu vim disposta a sobreviver.
A frase saiu antes que eu pudesse suavizar. Caio ouviu sem desviar, e algo na expressão dele ficou mais fechado. Não pena. Não gentileza. Apenas atenção.
Ele pegou a folha das minhas condições e passou os olhos pela lista.
— Tem mais uma.
Meu corpo ficou imóvel, mas mantive a voz firme.
— Tem.
— Qual?
Respirei devagar.
— Se eu aceitar isso, não será porque acredito no senhor. Não será porque confio no seu nome, no seu dinheiro ou na sua promessa de salvar qualquer coisa. Será porque minha família precisa de tempo.
Caio colocou a folha sobre a mesa.
— Isso não é uma condição.
— É a base de todas elas.
Ele ficou em silêncio, e pela primeira vez desde que entrei naquela sala, tive a impressão de que Caio Meirelles estava escolhendo não responder rápido demais.
— Então diga a condição, Serena.
O modo como ele falou meu nome quase me fez perder a linha de raciocínio. Quase.
Levantei o queixo.
— Eu quero uma cláusula de saída.
Caio não respondeu de imediato.
Foi a primeira vez que o silêncio dele pareceu menos calculado e mais incômodo.
Ele apoiou a caneta sobre a mesa, alinhando-a com precisão ao lado do contrato, como se precisasse colocar alguma coisa no lugar antes de falar comigo.
— Uma cláusula de saída — repetiu, devagar.
— Exatamente.
— Você quer assinar um contrato já procurando uma forma de sair dele?
Mantive o olhar no dele.
— Eu quero ter certeza de que, se entrar, ainda existe uma porta.
Caio me observou por alguns segundos, e a calma dele mudou. Não desapareceu, mas ficou mais dura, mais fria.
— Portas existem, Serena — ele disse. — O problema é o preço de atravessá-las.
Senti meus dedos apertarem a borda da mesa.
— Então escreva o preço.
Pela primeira vez desde que entrei naquela sala, Caio Meirelles sorriu sem nenhum traço de humor.
— Com prazer.
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