Truyen3h.Co

A Noiva do Inimigo

Capítulo 18

Duarteally

O carro preto parecia esperar por nós como se também fizesse parte do contrato.

O motorista abriu a porta traseira assim que nos aproximamos. Caio não precisou dizer nada. Não fez sinal, não deu ordem, não explicou. Tudo ao redor dele funcionava antes que fosse necessário pedir, e isso me incomodava de um jeito difícil de esconder.

Parei ao lado da porta aberta.

— Eu ainda tenho meu carro no estacionamento.

Caio olhou para mim.

— Ele será levado até a sua casa.

— O senhor decidiu isso quando?

— Quando você assinou.

Soltei uma risada curta, sem humor.

— Impressionante. O contrato mal começou e meu carro já perdeu autonomia.

— Seu carro está perfeitamente autônomo. Você, neste momento, não.

A resposta me atingiu antes que eu pudesse preparar uma ironia. Olhei para ele, tentando descobrir se tinha sido provocação ou apenas uma constatação fria. Com Caio, as duas coisas costumavam andar juntas.

— Que frase encantadora para dizer à sua noiva recém-anunciada.

— Prefere que eu minta?

— Prefiro que o senhor encontre um equilíbrio menos insuportável entre verdade e arrogância.

Ele segurou a porta com uma das mãos.

— Entre no carro, Serena.

Meu nome saiu baixo, sem pressa, mas carregado daquele tipo de autoridade que não precisava aumentar o volume. Olhei ao redor. A recepcionista nos observava discretamente pela parede de vidro. Dois homens de terno fingiam conversar perto da entrada. O comunicado tinha acabado de sair, e eu já conseguia sentir os olhares mudando de lugar.

A primeira imagem.

Era disso que ele tinha falado.

E, por mais que eu odiasse admitir, eu entendi.

Entrei no carro sem pegar a mão dele.

Caio entrou pelo outro lado, acomodando-se ao meu lado com uma naturalidade irritante. A porta fechou, abafando o som da rua e deixando o interior do veículo silencioso demais. O cheiro era discreto, caro, impessoal. Couro, ar-condicionado e alguma coisa amadeirada que parecia combinar com ele contra a minha vontade.

O motorista começou a dirigir antes que eu dissesse o endereço.

— Ele sabe para onde ir? — perguntei.

Caio nem olhou para o motorista.

— Sabe.

— Claro que sabe.

Peguei o celular dentro da bolsa. A tela estava tomada por notificações. Marina tinha ligado três vezes. Mamãe duas. Havia mensagens de números que eu não reconhecia, prints do comunicado, comentários de pessoas que não falavam comigo há meses e, no meio de tudo, uma mensagem de Marina em letras maiúsculas.

"VOCÊ ESTÁ COM ELE?"

Bloqueei a tela.

— Sua irmã? — Caio perguntou.

— O senhor também controla telepatia ou só trabalha com dedução?

— Você olhou para o celular como se ele tivesse te acusado de um crime.

— Considerando a situação, não está tão longe.

Caio apoiou o braço na lateral do banco, tranquilo demais.

— Responda.

Olhei para ele.

— Agora o senhor administra minhas mensagens também?

— Não. Mas se ela ligar de novo e você não atender, vai imaginar algo pior.

Eu odiei o fato de ele estar certo de novo. Desbloqueei o celular e digitei rápido.

"Estou indo para casa. Sim, ele está comigo. Não grita com a mamãe."

A resposta veio quase instantânea.

"EU VOU GRITAR COM VOCÊ."

Quase sorri. Quase.

— Ela não gostou — Caio disse.

— Marina não gosta de muitas coisas. Hoje, o senhor lidera a lista.

— Uma posição difícil de manter?

— Não se preocupe. O senhor tem talento natural.

Dessa vez, ele virou o rosto para a janela, e o canto da boca dele se moveu de leve. Eu desviei o olhar antes que aquilo parecesse alguma coisa além de irritação compartilhada.

Meu celular vibrou de novo. Era mamãe.

Eu sabia que deveria atender. Sabia também que, se ouvisse a voz dela naquele momento, talvez toda a firmeza que eu tinha usado para assinar começasse a se desfazer pelas bordas.

Atendi mesmo assim.

— Mamãe.

— Serena, a notícia saiu.

A voz dela estava baixa. Ao fundo, ouvi Marina falando alguma coisa, provavelmente andando pela sala como se pudesse atravessar as paredes só pela força da indignação.

— Eu sei.

— Você está vindo para casa?

Olhei de relance para Caio. Ele continuava olhando pela janela, mas eu sabia que ouvia.

— Estou.

Mamãe hesitou.

— Com ele?

Fechei os olhos por um segundo.

— Sim.

O silêncio dela me doeu mais do que qualquer crítica.

— Foi decisão sua? — ela perguntou.

Quase ri. Não de humor. De cansaço.

— Hoje essa pergunta ficou complicada.

Caio virou o rosto para mim.

Abri os olhos e encarei a cidade passando pelo vidro escuro.

— Mas eu estou indo, mamãe. E eu vou explicar quando chegar.

— Isaac perguntou por você.

Meu peito apertou.

— Ele viu alguma coisa?

— Ainda não. Marina está tentando distrair ele.

— Faz ele ficar longe do celular.

— Eu vou tentar.

A palavra tentar me deixou mais ansiosa do que eu queria demonstrar. Isaac era criança, mas não era bobo. Uma casa em crise tinha sons próprios, e ele já devia ter aprendido a reconhecer alguns.

— Já estamos chegando — falei.

Mamãe respirou fundo.

— Serena, eu sinto muito.

A frase veio tão baixa que, por um instante, eu quis esquecer a raiva. Mas esquecer parecia perigoso demais. Perdoar também.

— Eu sei — respondi. — Só não sei o que fazer com isso agora.

Desliguei antes que a conversa ficasse maior do que eu conseguia carregar dentro daquele carro.

Caio não disse nada de imediato. E talvez isso tenha sido o pior. O silêncio dele, naquele momento, parecia quase respeitoso. Eu preferia quando ele era impossível.

— Não faça isso — falei.

Ele olhou para mim.

— Isso o quê?

— Ficar quieto como se entendesse.

— Eu entendo mais do que você gostaria.

— O senhor não sabe nada sobre minha família.

— Sei o suficiente para saber que você assinou por eles.

A frase foi simples. Exata. Cruel pela precisão.

Virei o rosto para a janela, porque encará-lo naquele momento seria admitir que ele tinha acertado.

— Não use isso como vantagem — falei.

Caio respondeu sem hesitar:

— Eu já usei.

Olhei para ele de novo.

A honestidade dele deveria me irritar menos do que uma mentira.

Não irritava.

— Pelo menos o senhor não finge ser uma boa pessoa.

— Pessoas boas costumam perder negociações.

— E pessoas como o senhor?

Caio sustentou meu olhar.

— Ganham tempo.

O carro virou na rua da minha casa antes que eu respondesse. Pela janela, vi o portão, a fachada conhecida e, perto da calçada, um carro que eu não reconheci parado do outro lado da rua.

Meu corpo ficou alerta.

Caio percebeu no mesmo instante.

— Imprensa — ele disse.

A palavra caiu no carro como uma sentença.

Na porta da minha casa, Marina apareceu primeiro.

E atrás dela, Isaac.

Meu primeiro impulso foi abrir a porta do carro antes mesmo que ele parasse por completo.

Caio segurou meu pulso.

Não apertou. Não machucou. Mas foi o suficiente para me impedir.

Virei o rosto para ele na mesma hora.

— Solta.

Ele soltou.

— Não saia correndo.

— Meu irmão está na porta.

— E tem imprensa na rua.

— Eu não me importo.

— É exatamente por isso que eu estou falando.

A resposta veio firme, sem elevar a voz. O motorista estacionou diante do portão, e eu vi Marina colocar uma das mãos no ombro de Isaac, tentando puxá-lo para dentro. Ele, porém, olhava para o carro com a testa franzida, pequeno demais para estar no meio de uma coisa tão grande.

Meu peito apertou de um jeito quase físico.

— Ele não deveria estar vendo isso — murmurei.

— Então não dê a ele uma cena pior para lembrar.

Olhei para Caio, pronta para odiá-lo por aquela frase. O problema era que, mais uma vez, ele tinha acertado onde doía. Se eu saísse desesperada, se atravessasse a calçada como se estivesse fugindo, Isaac perceberia. A imprensa também. E, em poucos minutos, a primeira imagem do nosso noivado poderia virar outra coisa.

Uma história dentro da história.

Caio ajeitou o paletó com calma.

— Eu vou sair primeiro.

— Por quê?

— Porque eles vão olhar para mim antes de olhar para você.

— Que conveniente.

— Use isso.

Fiquei alguns segundos sem responder. Detestava a naturalidade com que ele se colocava na frente, não como herói, mas como alguém que sabia exatamente onde as câmeras iriam procurar poder. Era irritante. Era útil. E eu estava começando a odiar quantas vezes essas duas coisas apareciam juntas quando se tratava dele.

Caio abriu a porta e saiu.

Do outro lado da rua, uma pessoa levantou o celular. Outra fingiu falar ao telefone enquanto nos filmava. Não eram muitos, talvez dois ou três, mas bastava um registro ruim para virar assunto. Caio contornou o carro e abriu a minha porta.

Estendeu a mão.

Eu encarei os dedos dele por um segundo.

— Não abuse da sorte — falei baixo.

— Não estou abusando. Estou oferecendo uma saída elegante.

— Sua definição de elegância é perturbadora.

— A sua resistência também.

Não peguei a mão dele. Saí sozinha, mantendo a postura firme, mas Caio permaneceu perto o bastante para que parecesse escolha coordenada. O calor da rua me atingiu junto com a sensação dos olhares sobre nós.

Marina continuava na porta, furiosa. Isaac estava ao lado dela, ainda sem entender direito. Mamãe apareceu atrás dos dois, pálida, com uma das mãos apoiada no batente.

A distância até a entrada da casa pareceu maior do que realmente era.

— Serena! — uma voz chamou da calçada oposta. — É verdade o noivado?

Meu corpo travou por uma fração de segundo.

Caio respondeu antes que eu precisasse.

— A nota oficial já foi publicada.

O tom dele era educado, frio e definitivo. Não abria espaço para perguntas. Mesmo assim, a pessoa insistiu:

— Vocês já têm data?

Dessa vez, fui eu quem respondeu, sem parar de andar.

— Quando tivermos algo para compartilhar, será comunicado oficialmente.

Caio olhou para mim de relance.

— Boa resposta — ele murmurou.

— Não comece a me dar nota.

— Então pare de acertar.

Tive vontade de pisar no pé dele. Em vez disso, continuei andando até a porta, porque Isaac ainda estava ali, me olhando como se eu tivesse chegado com uma notícia escrita no rosto.

Quando alcancei a entrada, Marina falou primeiro, com a voz baixa o bastante para não atravessar a rua.

— Você trouxe ele mesmo.

— Marina — mamãe advertiu.

— Não começa — respondi, também baixo.

Isaac olhou de mim para Caio.

— Você vai casar?

A pergunta dele foi simples. Direta. Sem maldade nenhuma. Talvez por isso tenha sido a pior de todas.

Agachei na frente dele, ignorando o tecido da calça e a presença de Caio atrás de mim.

— Eu vou explicar tudo para você com calma, tá?

Isaac franziu a testa.

— Mas é verdade?

Engoli em seco.

Eu podia mentir para jornalistas. Podia escolher palavras bonitas para comunicado. Podia negociar cláusulas com Caio Meirelles e fingir que ainda sabia onde terminava estratégia e começava sobrevivência.

Mas Isaac olhava para mim como se eu ainda fosse apenas a irmã dele.

— É verdade — respondi.

Ele olhou para Caio outra vez.

— Você gosta dela?

O silêncio veio rápido.

Marina fechou os olhos, como se pedisse paciência a qualquer força disponível no universo. Mamãe ficou imóvel. Eu senti a pergunta bater no meu peito antes mesmo de chegar até Caio.

Caio se abaixou levemente, não o bastante para parecer íntimo, mas o suficiente para falar com Isaac sem olhar de cima.

— Eu respeito sua irmã.

Isaac pensou por um segundo.

— Isso não foi o que eu perguntei.

Pela primeira vez naquele dia, quase vi Caio perder o ritmo.

Quase.

Ele sustentou o olhar do meu irmão com uma seriedade que me incomodou.

— Então essa é uma resposta que eu ainda vou precisar merecer.

Isaac pareceu considerar aquilo. Depois olhou para mim.

— Você está triste?

A minha garganta fechou.

Antes que eu respondesse, Caio se endireitou ao meu lado. Não falou por mim. Não me tocou. Mas a presença dele ali, firme e silenciosa, parecia lembrar que a rua ainda estava atrás de nós, que pessoas ainda olhavam, que até a minha dor tinha plateia agora.

Sorri para Isaac do jeito mais cuidadoso que consegui.

— Estou cansada.

Ele não pareceu acreditar totalmente.

Crianças eram perigosas por isso. Não sabiam ler contratos, mas liam pessoas melhor do que adultos.

Marina tocou o ombro dele.

— Vamos entrar, campeão.

Isaac hesitou, depois entrou com ela. Mamãe ficou na porta, olhando para mim e para Caio, como se ainda tentasse entender a forma exata daquilo que tinha começado.

Caio se aproximou o suficiente para falar baixo, só para mim.

— Você fez bem.

Não olhei para ele.

— Não preciso da sua aprovação.

— Eu sei.

— Então pare de oferecer.

Ele não respondeu, e isso me irritou quase tanto quanto se tivesse respondido.

Entrei em casa primeiro. Caio veio logo atrás.

E, quando a porta se fechou, deixando a rua, os celulares e os olhares do lado de fora, percebi que o pior não tinha sido chegar ao lado dele.

O pior era que, agora, ele estava dentro da minha casa.

A casa parecia diferente com Caio dentro dela.

Não porque ele tivesse feito alguma coisa. Esse era o pior. Ele apenas estava ali, parado perto da entrada, com o paletó impecável e a expressão controlada, e ainda assim a sala parecia ter perdido parte do próprio espaço.

Marina fechou a porta depois de garantir que Isaac tinha ido para a cozinha com Elisa. Quando se virou para nós, o olhar dela foi direto para Caio.

— Você tem noção do tamanho da confusão que acabou de colocar na porta da nossa casa?

Caio não pareceu afetado pela acusação.

— Tenho.

— Ótimo. Então pode ir embora satisfeito.

— Marina — mamãe chamou, em tom baixo.

— Não, mamãe. Ele aparece com contrato, anúncio, carro preto e imprensa na calçada, mas sou eu que preciso ter educação?

Caio manteve as mãos ao lado do corpo, sem se defender de imediato. Aquela calma dele dentro da minha casa me irritava de um jeito novo. No escritório, ela combinava com vidro escuro, mesa grande e vista da cidade. Ali, perto das fotos de família e da almofada torta que Isaac sempre jogava no sofá, parecia quase uma invasão.

— A imprensa não foi chamada para a porta de vocês — Caio disse.

Marina soltou uma risada seca.

— Que coincidência maravilhosa.

— Foi consequência do comunicado.

— Consequência que você previu — respondi.

Ele olhou para mim.

— Sim.

A honestidade dele fez Marina abrir os braços, indignada.

— E isso deveria melhorar alguma coisa?

— Não — Caio respondeu. — Deveria evitar surpresa.

— Tarde demais — ela retrucou.

Mamãe se aproximou de mim, tocando meu braço de leve.

— Serena, você está bem?

Eu queria responder que sim. Queria sustentar a mesma firmeza que tinha usado diante das câmeras improvisadas, do comunicado e da assinatura. Mas dentro de casa era mais difícil mentir. Ali eu não era a noiva recém-anunciada de Caio Meirelles. Era só eu, cansada, com a bolsa ainda no ombro e a sensação de que minha vida tinha sido publicada antes que eu conseguisse entendê-la.

— Estou tentando — respondi.

Mamãe apertou meus dedos por um segundo.

Marina olhou para Caio de novo.

— Ela precisa respirar. Longe de você, de preferência.

— Eu não vou demorar — ele disse.

— Que generoso.

— Marina — falei, antes que ela avançasse mais um passo nessa guerra.

Ela me encarou.

— O quê? Agora eu também preciso sorrir para ele?

— Não. Mas Isaac está na cozinha.

A menção ao nome dele mudou a expressão dela. A raiva continuou, mas baixou de volume. Marina passou a mão pelo cabelo e respirou fundo, como se cada parte dela odiasse ter que se controlar.

Caio percebeu. Claro que percebeu.

— Minha equipe vai manter a imprensa afastada da frente da casa — ele disse.

Olhei para ele.

— Sua equipe já está aqui?

— A caminho.

— O senhor manda pessoas para minha rua sem avisar e ainda chama isso de ajuda?

— Chamo de contenção.

— Eu chamo de invasão com vocabulário caro.

O canto da boca dele se moveu de leve, mas dessa vez não havia quase sorriso. Só atenção.

— Se preferir, eles não se aproximam da entrada. Ficam na esquina e impedem novas abordagens.

— Você fala como se eu tivesse escolha.

— Você tem. Só estou deixando claro o custo de cada uma.

Marina soltou um som baixo, irritada.

— Eu odeio que ele saiba argumentar.

— Eu também — respondi, sem tirar os olhos de Caio.

Por alguns segundos, a sala ficou em silêncio. Do fundo da casa, veio a voz de Isaac perguntando alguma coisa para Elisa. O som me atravessou com força. Ele estava perto demais de uma história que eu ainda não sabia como contar sem quebrar alguma parte da infância dele.

— Tudo bem — falei por fim. — Sua equipe fica na esquina. Ninguém entra no portão. Ninguém fala com Isaac. Ninguém tira foto da casa.

Caio assentiu.

— Feito.

— E você vai embora depois disso.

— Vou.

A rapidez da resposta me surpreendeu.

— Sem discutir?

— Nem todas as suas exigências são irracionais.

— Que elogio emocionante.

— Não foi elogio.

— Melhor ainda. Eu não saberia onde guardar.

Marina olhou de mim para Caio com uma expressão desconfiada.

— Vocês sempre conversam assim?

— Infelizmente — respondi.

— Frequentemente — Caio disse ao mesmo tempo.

Eu virei o rosto para ele.

— Não ajude.

— Não estava tentando.

Mamãe fechou os olhos por um instante, como se pedisse paciência. Marina, por outro lado, pareceu odiar ainda mais o fato de que, mesmo em meio ao desastre, eu e Caio conseguíamos transformar cada frase em uma pequena disputa.

Meu celular vibrou dentro da bolsa. Peguei o aparelho, esperando mais mensagens de curiosos, mas era uma notificação de notícia. A manchete repetia meu nome ao lado do dele, agora com uma foto antiga minha em um evento do Grupo Avelar e uma imagem de Caio saindo de alguma reunião.

Serena Avelar e Caio Meirelles anunciam noivado em meio à reestruturação do Grupo Avelar.

A palavra reestruturação parecia limpa demais para o caos que tinha nos trazido até ali.

Mamãe leu por cima do meu ombro e levou a mão ao peito.

Marina pegou o celular da minha mão, olhou a tela e xingou baixo.

Caio se aproximou apenas o suficiente para ver a manchete.

— Era esperado — ele disse.

— Para o senhor, tudo é esperado.

— Nem tudo.

Olhei para ele, tentando entender se havia alguma coisa escondida naquela resposta. Caio sustentou meu olhar, mas não explicou. Não havia culpa no rosto dele. Não havia pressa. Só aquela calma de quem sempre deixava metade da frase do lado de fora.

Antes que eu perguntasse qualquer coisa, Isaac apareceu na entrada da sala com um copo de suco nas mãos.

— Serena?

Meu corpo inteiro amoleceu ao ouvir a voz dele.

— Oi, campeão.

Ele olhou para o celular na mão de Marina, depois para Caio, depois para mim.

— Você vai morar com ele?

A pergunta acertou a sala inteira.

Mamãe ficou imóvel. Marina fechou a boca, pela primeira vez sem resposta. Eu senti Caio ao meu lado, silencioso, e odiei o fato de que ele não parecia surpreso.

Agachei devagar na frente de Isaac.

— Ainda não — respondi, escolhendo cada palavra. — A gente vai conversar sobre tudo com calma.

Isaac franziu a testa.

— Mas depois vai?

A resposta ficou presa na minha garganta.

Porque eu podia enfrentar Caio. Podia enfrentar imprensa. Podia enfrentar contrato, anúncio e sobrenomes.

Mas não sabia como explicar para meu irmão que algumas respostas já tinham sido decididas antes que eu tivesse coragem de dizê-las.

Caio falou atrás de mim, baixo e firme:

— Não hoje.

Virei o rosto para ele na mesma hora.

— Eu disse para não falar por mim.

Ele sustentou meu olhar.

— E eu não falei. Respondi a única parte que você ainda podia prometer.

A raiva veio rápida, mas não encontrou onde acertar.

Porque, de novo, ele estava certo.

Isaac olhou para mim, esperando confirmação.

Engoli em seco e forcei um sorriso pequeno.

— Não hoje.

Ele assentiu, ainda confuso, mas aceitou aquela migalha de verdade como se fosse suficiente por enquanto.

Eu fiquei ali, agachada diante dele, sentindo Caio de pé atrás de mim e a casa inteira prendendo a respiração.

E entendi que o contrato tinha acabado de fazer sua primeira exigência real.

Não diante do mercado.

Não diante da imprensa.

Mas dentro da minha própria casa.

Isaac voltou para a cozinha com Marina, mas não sem olhar para trás duas vezes.

Eu continuei parada no meio da sala, tentando ignorar o peso daquela pergunta. Você vai morar com ele? Parecia simples quando vinha da boca de uma criança. Talvez porque crianças ainda acreditassem que as respostas deviam caber em sim ou não.

Mamãe foi até a janela e olhou pela fresta da cortina.

— Ainda tem gente lá fora.

Caio pegou o celular, leu alguma mensagem e respondeu com poucas palavras antes de guardá-lo no bolso.

— Minha equipe já está na esquina. Em alguns minutos, ninguém vai conseguir se aproximar da casa.

Marina voltou da cozinha nesse instante e cruzou os braços.

— Que ótimo. Agora temos uma equipe Meirelles protegendo a calçada. Era tudo que faltava para o domingo ficar acolhedor.

— Marina — falei, cansada.

— Eu estou tentando, Serena. Juro que estou. Mas ele fala como se tivesse acabado de instalar um aplicativo de segurança na nossa vida.

Caio olhou para ela com a mesma calma de sempre.

— Se fosse um aplicativo, teria termos de uso menos extensos.

Marina ficou sem reação por meio segundo.

— Eu odeio que ele tenha respondido isso.

— Eu também — murmurei.

Mamãe soltou um suspiro baixo, talvez a coisa mais próxima de riso que aquela sala conseguiria produzir. Durou pouco. Logo ela voltou a olhar para Caio com uma seriedade que me lembrou a Helena Avelar da gala, só que sem maquiagem suficiente para esconder o desgaste.

— O que acontece agora? — ela perguntou.

A pergunta era para ele, mas acertou a mim.

Caio respondeu sem pressa.

— Agora o comunicado circula. Durante as próximas horas, provavelmente surgirão mensagens, ligações e especulações. Minha equipe vai filtrar a imprensa e orientar a assessoria de vocês, caso autorizem.

Marina levantou a mão.

— Eu não autorizo nada vindo dele.

— A decisão é da Serena — Caio disse.

O silêncio que veio depois foi pior do que uma ordem.

Porque ele estava certo.

Todos olharam para mim. Mamãe com medo. Marina com raiva. Caio com aquela atenção controlada de quem me devolvia o peso apenas para provar que ele ainda existia.

Apertei os dedos contra a lateral da bolsa.

— A equipe dele pode orientar a comunicação externa. Nada além disso. Qualquer resposta passa por mim antes.

Caio assentiu.

— Feito.

— E nada sobre Isaac.

— Já está alinhado.

— Eu quero por escrito.

— Você terá em cinco minutos.

Marina olhou para mim, depois para ele.

— Vocês acabaram de ficar noivos por contrato ou abriram uma empresa?

— No momento, parece os dois — respondi.

Caio me observou, e havia algo quase irritantemente satisfeito na expressão dele. Não alegria. Não orgulho. Apenas a confirmação silenciosa de que eu estava aprendendo rápido demais a linguagem que ele tinha imposto.

— Eu vou embora — ele disse.

A frase deveria aliviar a sala. Não aliviou. Porque a presença dele já tinha deixado marcas demais para sumir junto com ele pela porta.

Acompanhei-o até a entrada antes que Marina decidisse fazer isso com algum objeto pesado na mão. Caio parou perto do aparador e olhou para mim.

— Amanhã, às onze.

Franzi a testa.

— O quê?

— O almoço com os investidores.

— O senhor marca compromissos comigo como se estivesse atualizando agenda de reunião.

— Tecnicamente, estou.

— Que romântico.

— Achei que não quisesse romance.

— Não quero. Mas o senhor poderia tentar ser menos parecido com uma ata.

O canto da boca dele se moveu.

— Amanhã, às onze — repetiu. — Eu mando o endereço e o briefing pela manhã.

— Briefing?

— Para você saber quem estará lá, o que pode ser dito e o que deve ser evitado.

— O senhor realmente achou que a palavra briefing melhoraria isso?

— Achei que clareza ajudaria.

— Vinda do senhor, clareza parece ameaça com boa formatação.

Caio olhou para mim por um segundo a mais do que deveria.

— Durma, Serena.

A frase me pegou desprevenida. Talvez por ser simples. Talvez por não vir acompanhada de uma cláusula. Ainda assim, me recusei a deixar que soasse como cuidado.

— Não recebo ordens depois das seis.

— Recebe, sim. Só discute antes.

Abri a porta antes que eu respondesse algo que desse a ele a satisfação de continuar aquela disputa.

Lá fora, o carro preto ainda esperava. Na esquina, dois homens conversavam com alguém perto do carro desconhecido. A rua parecia mais controlada, mas não mais segura. Só mais silenciosa.

Caio desceu o primeiro degrau e parou antes de seguir.

— Serena.

Olhei para ele.

— O quê?

— Hoje você entrou no acordo. Amanhã, começa a convencer o mundo.

Minha garganta apertou, mas mantive o queixo firme.

— E depois?

Caio sustentou meu olhar com uma calma que parecia sempre saber mais do que dizia.

— Depois você aprende a sobreviver dentro dele.

Ele entrou no carro sem esperar resposta.

Fiquei na porta até o veículo desaparecer na esquina. Só então fechei a porta e encostei a testa na madeira por um segundo.

Atrás de mim, a casa estava quieta.

Na minha frente, o mundo já sabia.

E, pela primeira vez, eu entendi que não bastava ter assinado o contrato.

Agora eu teria que parecer capaz de viver nele.

Bạn đang đọc truyện trên: Truyen3h.Co