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A Noiva do Inimigo

Capítulo 17

Duarteally

Faltavam quinze minutos para o mundo descobrir.

Quinze minutos era pouco tempo para se arrepender com dignidade. Também era pouco tempo para fugir, ligar para Marina, pedir que mamãe desligasse todos os celulares da casa ou inventar qualquer plano absurdo que me devolvesse a sensação de controle.

Então eu apenas fiquei parada na sala de Caio Meirelles, encarando a tela do meu celular.

Publicação agendada.

Duas palavras simples. Frias. Irreversíveis.

A pasta escura com o contrato assinado continuava sobre a mesa, fechada com uma precisão que me irritava. Como se Caio não tivesse acabado de prender um ano da minha vida entre páginas, assinaturas e silêncio.

— Você pode esperar aqui até o comunicado sair — ele disse.

Ergui os olhos.

— Para quê? O senhor vai servir champanhe quando minha vida virar notícia?

— Não costumo beber durante negociações.

— Que pena. Talvez deixasse o senhor menos insuportável.

Caio apenas desviou o olhar para a pasta sobre a mesa, tranquilo demais para alguém que tinha acabado de reorganizar o futuro de outra pessoa.

— Ou menos eficiente.

— Uma tragédia para o mercado.

O canto da boca dele se moveu, mas ele não sorriu de verdade. Eu começava a odiar aquele quase sorriso. Era pequeno demais para ser uma provocação aberta e presente demais para ser ignorado.

Peguei minha bolsa.

— Eu vou para casa.

— Vou com você.

Parei no meio do movimento.

— Não vai.

— Vou.

A resposta veio tão simples que me deu vontade de rir. Não porque fosse engraçado, mas porque Caio tinha um talento especial para dizer absurdos como se estivesse informando a previsão do tempo.

— O senhor acabou de me ouvir dizer que vou para casa?

— Ouvi.

— Então também deve ter ouvido a parte em que eu não convidei.

Caio caminhou até a mesa e pegou o próprio celular.

— O anúncio sai em minutos. Sua casa provavelmente será procurada por imprensa, curiosos e pessoas oferecendo parabéns falsos com interesse verdadeiro.

A frase apagou parte da minha irritação, mas não o suficiente para eu admitir.

— E sua brilhante solução é aparecer comigo?

— Minha solução é controlar a primeira imagem.

Cruzei os braços.

— Eu sou uma pessoa, Caio. Não uma imagem.

— A partir de agora, para algumas pessoas, você será as duas coisas.

O silêncio que veio depois foi curto, mas pesado. Eu odiei o fato de ele estar certo. Odiei ainda mais que ele soubesse disso antes de mim e estivesse usando a verdade sem pressa, como se fosse apenas mais uma ferramenta sobre a mesa.

— Minha família não precisa ver o senhor entrando na nossa casa hoje — falei.

— Sua família precisa entender que o acordo começou.

— Elas sabem.

— Saber e ver são coisas diferentes.

A resposta me acertou onde eu não queria. Mamãe podia ter ouvido minha voz pelo telefone. Marina podia ter entendido a decisão antes mesmo de eu dizer. Mas ver Caio ao meu lado, dentro da nossa casa, tornaria tudo real de outro jeito.

— Você quer marcar território — falei.

Caio sustentou meu olhar.

— Quero impedir que outros façam isso primeiro.

— Essa frase deveria me tranquilizar?

— Deveria fazer você pensar.

Soltei uma risada baixa, sem humor.

— Ultimamente, o senhor tem causado exatamente o contrário. Minha cabeça nunca trabalhou tanto contra a minha vontade.

Ele pegou a pasta com o contrato e se aproximou, parando a uma distância calculada. Perto o bastante para ocupar o espaço à minha frente, longe o suficiente para não me dar motivo concreto para recuar.

— Serena, você assinou um acordo que depende de percepção pública. Nos próximos dias, cada gesto vai ser observado.

— Então vou me lembrar de respirar de um jeito convincente.

— Já seria um começo.

— O senhor está tentando ser engraçado?

— Não.

— Então é pior. Veio naturalmente.

Dessa vez, ele quase sorriu de verdade. Quase. E aquilo me irritou por um motivo diferente, porque por um segundo a conversa pareceu menos uma negociação e mais uma disputa que nenhum dos dois queria abandonar.

Foi rápido.

Rápido o bastante para eu me recompor.

— Eu vou no meu carro — avisei.

— Não.

Olhei para ele, incrédula.

— Perdão?

— Você vai comigo.

— Eu não lembro de ter assinado uma cláusula sobre transporte.

— Assinou uma sobre aparições coordenadas.

— Ir para minha casa não é aparição.

Caio ergueu o celular e virou a tela para mim. Havia uma mensagem de sua equipe, curta e objetiva, informando que alguns veículos de imprensa já tinham recebido alerta sobre o comunicado.

Meu estômago afundou.

— Como assim já receberam alerta?

— A publicação sai em minutos. A assessoria prepara o terreno antes.

— Isso não estava no comunicado.

— Não precisa estar.

A raiva subiu rápido, mas veio acompanhada de uma compreensão amarga. Eu tinha pedido para participar das decisões públicas, mas Caio ainda conhecia todas as engrenagens que vinham antes delas. Ele não precisava descumprir o contrato para continuar um passo à frente. Bastava saber onde o contrato não alcançava.

— O senhor é impossível — falei.

— Sou útil.

— As duas coisas podem ser verdade.

— Concordo.

Peguei meu celular e conferi o horário. Faltavam nove minutos.

Nove minutos para meu nome aparecer ao lado do dele.

Nove minutos para as pessoas começarem a perguntar quando, como, por quê.

Nove minutos para Serena Avelar deixar de ser apenas a filha de uma família em crise e virar noiva de Caio Meirelles.

Respirei fundo e guardei o celular na bolsa.

— Se entrar na minha casa, não fale por mim.

Caio inclinou a cabeça.

— Não pretendo.

— E não tente parecer íntimo.

— Isso será difícil.

Meu olhar estreitou.

— Por quê?

Ele pegou o paletó no encosto da cadeira, vestindo-o com uma calma absurda.

— Porque, em nove minutos, Serena, o mundo inteiro vai achar que eu sou.

A frase dele ficou entre nós como uma provocação muito bem colocada.

Em nove minutos, o mundo inteiro vai achar que eu sou.

Não íntimo. Não próximo. Não importante.

Meu.

Era isso que ele não tinha dito, mas que ficou implícito de um jeito irritante demais para ser ignorado.

Apertei a alça da bolsa.

— O senhor tem uma habilidade péssima de transformar frases simples em ameaça.

Caio terminou de ajustar o paletó e pegou o celular sobre a mesa.

— Não foi ameaça.

— Então foi o quê?

— Realidade.

Soltei uma risada baixa.

— Claro. Sua palavra favorita depois de contrato, prazo e controle.

— Controle não é uma palavra ruim.

— Para quem controla, imagino que não.

Ele passou por mim em direção à porta, mas parou antes de abri-la. Não tocou em mim. Não chegou perto demais. Ainda assim, a presença dele parecia empurrar a sala inteira na minha direção.

— Serena, quanto mais rápido entender como isso funciona, menos espaço as pessoas terão para usar contra você.

— E o senhor está me ensinando por generosidade?

— Por interesse.

— Pelo menos isso foi honesto.

Caio abriu a porta.

— Eu costumo ser.

— Não confunda honestidade com conveniência.

— Não confunda resistência com estratégia.

Passei por ele antes que a conversa virasse outro duelo sem vencedor. No corredor, a secretária levantou os olhos assim que nos viu sair juntos. O gesto foi discreto, profissional, mas eu percebi o segundo exato em que ela entendeu o que estava vendo.

A notícia ainda não tinha saído.

E mesmo assim já começava.

Caio caminhou ao meu lado, sem pressa. A distância entre nós era perfeitamente calculada: próximos o bastante para parecer alinhamento, afastados o suficiente para não parecer intimidade forçada. O problema era que, ao lado dele, até o espaço parecia obedecer.

No elevador, fiquei de frente para as portas metálicas. O reflexo dos dois apareceu no aço escuro: Caio calmo, alto, impecável; eu com a bolsa presa ao ombro e o queixo erguido por pura teimosia.

— Não precisa parecer tão contrariada — ele disse.

Olhei para o reflexo dele.

— Preciso, sim. É uma das poucas coisas que ainda faço de graça.

— Em público, isso muda.

— O senhor pretende controlar minhas expressões também?

— Pretendo orientar.

Virei o rosto para ele.

— Que palavra charmosa para mandar.

Caio sustentou meu olhar pelo reflexo.

— Você prefere que eu minta?

— Eu prefiro que o senhor fale menos.

— Isso será difícil.

— Para mim ou para você?

— Para a narrativa.

Revirei os olhos antes de conseguir impedir.

— Se essa narrativa sobreviver a mim, ela merece um prêmio.

— Eu estou contando com isso.

A resposta veio calma demais, e isso me desarmou por uma fração de segundo. Não porque fosse gentil. Caio não estava sendo gentil. Mas havia uma confiança irritante ali, como se ele realmente acreditasse que eu seria útil não apesar da minha resistência, mas por causa dela.

O elevador chegou ao térreo antes que eu encontrasse uma resposta.

No hall, alguns funcionários circularam com discrição. Dois homens de terno olharam para nós por tempo demais. Uma mulher perto da recepção fingiu conferir algo no tablet, mas seus olhos voltaram para Caio antes de deslizarem para mim.

Aquilo ainda não era imprensa.

Mas já era público.

Caio percebeu antes de mim. Claro que percebeu.

— Fique ao meu lado — ele disse, baixo.

— Não me dê ordens.

— Então entenda como sugestão urgente.

— Continua parecendo ordem.

— Mas mais educada.

Eu queria responder. Queria mesmo. Mas, naquele instante, meu celular vibrou dentro da bolsa. Depois o dele. Depois o aparelho da recepcionista sobre o balcão.

Três sons quase ao mesmo tempo.

Meu corpo ficou rígido.

Caio olhou para o próprio celular, depois para mim.

— Saiu.

Não precisei perguntar o quê.

Mesmo assim, peguei meu celular com dedos mais tensos do que gostaria. A notificação apareceu no topo da tela.

Caio Meirelles e Serena Avelar comunicam noivado.

Meu nome estava ali.

Ao lado do dele.

Sem o meu tremor. Sem a minha raiva. Sem o contrato, as cláusulas, o prazo ou a sensação de ter assinado com as costas contra a parede.

Para o mundo, parecia simples.

Para mim, parecia tarde demais.

Antes que eu pudesse bloquear a tela, uma segunda notificação apareceu. Depois outra. Mensagens chegando. Ligações. O nome de Marina. O nome de mamãe. Um número desconhecido.

Caio estendeu a mão.

— Agora venha.

Olhei para a mão dele como se ela fosse parte do contrato.

— Não.

— Serena.

Meu nome, dito daquele jeito, não soou como pedido. Soou como lembrete.

Havia pessoas olhando. Poucas, mas suficientes. O primeiro gesto depois do anúncio importava. Eu sabia disso porque ele tinha acabado de me explicar. Odiava saber. Odiava mais ainda que ele soubesse que eu sabia.

Respirei fundo e não peguei a mão dele.

Em vez disso, caminhei ao seu lado.

Caio abaixou a mão sem parecer contrariado. Talvez porque, no fim, ele ainda tivesse conseguido o que queria: saímos juntos.

As portas de vidro se abriram diante de nós.

Lá fora, um carro preto já esperava.

E, pela primeira vez desde que assinei meu nome, entendi que o contrato não tinha começado na sala dele.

Tinha começado ali.

Quando todos viram que eu fui embora ao lado de Caio Meirelles.

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