Capítulo 13
— Com prazer.
Caio disse aquilo como se eu tivesse acabado de pedir algo simples. Um café. Uma caneta. Uma alteração qualquer em um documento sem importância. Mas o modo como ele puxou uma folha em branco de uma pasta ao lado do contrato deixou claro que, para ele, até uma saída podia ser transformada em cláusula.
Observei seus dedos alinharem o papel sobre a mesa.
— O senhor já tinha pensado nisso — falei.
Caio ergueu os olhos para mim.
— Em uma cláusula de saída?
— Em como torná-la difícil.
Ele apoiou a caneta entre os dedos, sem começar a escrever.
— Toda saída é difícil quando existe algo em jogo.
— Ou quando alguém faz questão de colocar algo em jogo.
Caio não pareceu ofendido. Pior: pareceu interessado.
— Você pediu uma porta, Serena. Não pediu que ela fosse leve.
Cruzei os braços, tentando não demonstrar o quanto aquela frase me incomodou. Eu queria uma garantia. Ele estava me oferecendo um corredor cheio de armadilhas e chamando aquilo de negociação.
— Quero uma saída antes dos doze meses — expliquei. — Se o acordo se tornar insustentável, se uma das partes descumprir o contrato ou se a minha família não receber a proteção prometida, eu posso encerrar tudo.
Caio começou a escrever.
— Justo.
A rapidez da resposta me fez estreitar os olhos.
— O senhor usa essa palavra com muita facilidade.
— Porque você ainda está dizendo coisas razoáveis.
— E qual é a parte pouco razoável?
Ele terminou a primeira linha antes de responder.
— Achar que encerrar o contrato não terá custo público.
Mantive o rosto firme, embora meu estômago tivesse apertado.
— Explique.
Caio colocou a caneta sobre a mesa e girou o papel na minha direção. A letra dele era firme, inclinada de leve, sem rasuras. Até escrevendo, ele parecia irritantemente preciso.
— Se você sair antes do prazo sem quebra comprovada da minha parte, o suporte emergencial será encerrado de forma gradual, não imediata.
Li a frase uma vez. Depois outra.
— Gradual — repeti.
— Trinta dias.
— Que generoso.
— Estratégico. Se fosse imediato, sua família não teria tempo de se reorganizar. Se fosse longo demais, o acordo não teria peso.
Levantei os olhos para ele.
— O senhor fala como se estivesse me fazendo um favor.
— Estou garantindo que a saída exista.
— Com um relógio preso nela.
— Todo contrato tem relógios.
Apoiei a mão sobre a folha, impedindo que ele a puxasse de volta.
— Então quero outra condição. Se a saída acontecer por descumprimento seu, minha família mantém a proteção financeira já iniciada até que as negociações urgentes sejam concluídas.
Caio me observou sem piscar.
— Você aprende rápido.
— Infelizmente, tive um bom professor nos últimos dois dias.
O comentário ficou entre nós, e percebi que ele entendeu exatamente onde eu queria atingir. Não mudou a expressão, mas a calma dele ficou mais fina, quase cortante.
— Aceito — Caio disse.
Dessa vez, eu não consegui esconder a surpresa.
— Aceita?
— Se eu descumprir, assumo o custo.
— Isso parece honesto demais vindo do senhor.
Caio inclinou a cabeça, e a luz fria da janela desenhou uma sombra breve no rosto dele.
— Talvez você ainda esteja confundindo caráter com método.
Soltei uma risada baixa.
— Não se preocupe. Eu não estou atribuindo caráter nenhum ao senhor.
Ele quase sorriu, mas segurou a expressão antes que aquilo virasse qualquer coisa parecida com diversão.
— Continue.
Respirei fundo e toquei a folha com a ponta dos dedos.
— Eu também quero uma cláusula de respeito à vida privada. Quartos separados. Rotinas separadas. Nenhuma exigência íntima, nenhuma encenação além do necessário em público.
A sala pareceu ficar mais silenciosa, embora nada realmente tivesse mudado. Caio apoiou as costas na cadeira e me observou com uma atenção que fez minha pele reagir antes da minha cabeça.
— Isso já estava implícito — ele disse.
— Então não vai se importar que esteja escrito.
— Não.
Ele pegou a caneta novamente.
— Escreva de forma clara — pedi. — Não quero margem para interpretação.
Caio começou a escrever, e eu acompanhei cada palavra como se minha liberdade dependesse da pressão daquela caneta contra o papel.
Talvez dependesse mesmo.
Quando terminou, ele empurrou a folha na minha direção.
— Mais alguma coisa?
Li a cláusula. Quartos separados. Ausência de obrigação conjugal. Limites de contato físico restritos a aparições públicas previamente acordadas. A frieza das palavras deveria me aliviar, mas havia algo desconfortável em ver minha intimidade transformada em item contratual.
— Sim — respondi, erguendo os olhos. — Quero que meu nome continue sendo Avelar.
Caio ficou imóvel.
Foi rápido.
Quase imperceptível.
Mas, pela primeira vez desde que comecei a impor minhas condições, ele não respondeu imediatamente.
Caio deixou a caneta parada entre os dedos.
Foi uma reação pequena, quase nada, mas eu já estava começando a entender que, em um homem como ele, até a ausência de resposta podia significar alguma coisa.
— Seu nome — ele disse, como se testasse o peso da frase.
— Meu nome — confirmei.
— Você entende que uma união civil envolve mudança de percepção pública.
— Percepção pública não exige que eu apague meu sobrenome.
Caio apoiou a caneta sobre a mesa com cuidado.
— Ninguém está falando em apagar.
— Está, sim. Só que com palavras mais bonitas.
Ele me observou por alguns segundos, e eu sustentei o olhar. Aquele ponto não era sobre vaidade, tradição ou birra. Eu tinha aceitado discutir cláusulas, prazos e até uma versão contratual da minha intimidade. Mas meu nome era a última coisa que ainda parecia inteiramente minha.
— Avelar continua comigo — falei. — No documento, em público e em qualquer apresentação que envolva esse acordo.
Caio inclinou a cabeça.
— Mesmo sabendo que o nome Avelar, neste momento, carrega instabilidade?
A pergunta foi dita sem crueldade, mas ainda assim cortou.
— Principalmente por isso.
Ele ficou em silêncio, e eu continuei antes que ele tentasse transformar aquilo em argumento financeiro.
— O senhor quer usar minha família como símbolo de confiança para o mercado. Quer que eu apareça ao seu lado para mostrar que os Avelar não desmoronaram. Então não me peça para esconder justamente o nome que torna essa narrativa possível.
Caio não desviou. Pela primeira vez, tive a sensação incômoda de que ele não estava apenas me avaliando. Estava me ouvindo.
— Isso foi bem colocado — ele disse.
— Não era uma apresentação. Era uma condição.
— As duas coisas podem ser verdade.
Respirei fundo, segurando a vontade de responder rápido demais. Com Caio, qualquer irritação virava material de análise, e eu não queria entregar mais nada de graça.
— Eu não vou me apresentar como Serena Meirelles — falei. — Não agora. Não enquanto esse casamento for um contrato.
A boca dele se curvou de leve, sem chegar a ser sorriso.
— E se deixar de ser?
Meu corpo ficou imóvel antes que eu conseguisse impedir. Caio percebeu, claro. Ele sempre parecia perceber.
— Não misture as coisas — respondi.
— Eu só estou trabalhando com possibilidades.
— Trabalhe com o contrato.
Ele pegou a caneta novamente, e o som da ponta tocando o papel pareceu alto demais naquele escritório silencioso.
— Nome civil preservado. Uso público como Serena Avelar. Em eventos formais, quando necessário, poderá ser apresentada como Serena Avelar, esposa de Caio Meirelles.
— Noiva — corrigi.
Caio ergueu os olhos.
— Ainda estamos antes da assinatura.
— Exatamente.
Ele riscou uma palavra e reescreveu sem reclamar.
— Serena Avelar, noiva de Caio Meirelles.
— Isso eu aceito.
— Por enquanto.
A frase veio baixa, quase casual, mas me irritou como se tivesse sido dita de propósito. Talvez tivesse. Com ele, eu começava a desconfiar que até o tom de voz era escolhido com antecedência.
Aproximei-me da mesa e li a cláusula com atenção. Estava ali. Meu nome. Meu sobrenome. Uma pequena vitória cercada por paredes altas, mas ainda uma vitória.
— Mais alguma condição? — Caio perguntou.
Olhei para a folha com minhas anotações. Havia várias coisas que eu queria controlar, mas nem tudo cabia em papel. Não dava para escrever uma cláusula exigindo que ele parasse de saber demais. Também não dava para exigir que minha vida voltasse ao que era antes de ele entrar nela como se sempre tivesse tido a chave.
— Uma última por agora — respondi.
Caio apoiou as costas na cadeira.
— Por agora?
— O senhor gosta tanto de prazos. Achei justo trabalhar com etapas.
Ele quase sorriu de novo.
— Continue.
Segurei a alça da bolsa com uma das mãos.
— Antes de qualquer assinatura definitiva, eu quero que meu advogado leia a versão revisada.
— Natural.
— E quero que minha família tenha acesso às informações financeiras que justificam esse acordo. Sem resumos convenientes. Sem pastas pela metade. Sem surpresas colocadas em cima de uma mesa quando eu já não tiver saída.
A expressão dele não mudou, mas os olhos ficaram mais atentos.
— Isso envolve documentos sensíveis.
— A minha vida também.
Caio sustentou meu olhar por tempo suficiente para transformar a resposta em disputa. Depois, pegou uma segunda pasta na gaveta da mesa e a colocou diante de mim.
A pasta era preta, lisa, sem identificação.
— Então comece por isso.
Encarei a pasta, e uma sensação fria subiu pela minha nuca.
— O que é?
Caio soltou a mão de cima dela.
— O motivo pelo qual seu prazo termina hoje às seis.
O escritório pareceu menor.
Olhei para ele, tentando descobrir se aquilo era ameaça, aviso ou mais uma peça no tabuleiro.
— E por que não me entregou antes?
Caio manteve a voz calma.
— Porque ontem você ainda estava decidindo se queria abrir a porta.
Baixei os olhos para a pasta.
Dessa vez, fui eu quem demorou a responder.
— E hoje?
Caio se levantou devagar, contornando a mesa até parar do outro lado, sem se aproximar demais.
— Hoje você entrou.
Olhei para Caio por alguns segundos antes de tocar na pasta.
— Isso é uma tentativa de me assustar?
Ele continuou de pé, ao lado da mesa, com as mãos nos bolsos e a expressão controlada.
— É uma tentativa de fazer você entender o tempo que tem.
— O senhor sempre responde como se estivesse em uma reunião com acionistas?
— Só quando a outra pessoa insiste em tratar uma crise como se fosse ofensa pessoal.
Abri a pasta antes que a vontade de responder me tirasse do foco. As primeiras páginas eram cópias de notificações, prazos, valores e nomes de instituições que eu já tinha visto antes, mas nunca daquele jeito. Não havia nenhuma revelação absurda, nenhum documento que explicasse o início da queda do Grupo Avelar, nada que apontasse para uma origem clara. Era pior por isso. Eram consequências. Muitas. Organizadas demais.
Passei os olhos por uma data marcada em vermelho.
— Isso vence amanhã.
— Sim.
Virei outra página.
— E isso?
— Quarenta e oito horas.
Levantei o rosto para ele.
— Por que isso não estava na pasta da minha mãe?
Caio voltou para trás da mesa, mas não se sentou.
— Porque nem todos os credores avisam a família inteira antes de agir.
— Mas avisaram o senhor?
— Avisaram pessoas que sabem ouvir antes que o barulho comece.
A resposta me irritou, mas não me deu nada concreto para atacar. Era exatamente o tipo de frase que dizia muito sem entregar quase nada.
Fechei a pasta com cuidado. Se eu continuasse olhando aquelas páginas, talvez perdesse a última parte de mim que ainda queria recusar por orgulho.
— Eu quero tudo isso analisado pelo meu advogado.
— Natural.
— E não vou assinar nada hoje.
Caio sustentou meu olhar.
— Seu prazo termina às seis.
— Eu disse que não vou assinar nada hoje. Não disse que vou recusar.
Pela primeira vez, fui eu quem teve o prazer de ver o silêncio dele durar um pouco mais do que o normal.
— Então o que você está dizendo? — Caio perguntou.
Segurei a alça da bolsa e respirei devagar. A resposta parecia simples, mas carregava minha casa, meu irmão dormindo sem saber de nada, Marina tentando ser forte por mim e mamãe escondendo o próprio medo atrás de frases cuidadosas.
— Estou dizendo que o senhor vai mandar a versão revisada para o meu advogado ainda hoje. Com as minhas condições. Todas elas.
Caio pegou a folha com minhas anotações.
— E depois?
— Depois eu decido se entro nessa armadilha com uma caneta na mão ou se deixo o senhor procurar outra família desesperada para transformar em estratégia.
O olhar dele não saiu do meu.
— Não existe outra família, Serena.
A frase deveria soar como provocação.
Mas saiu como certeza.
Senti meu corpo inteiro reagir, embora eu não soubesse exatamente ao quê.
— Então é melhor revisar com atenção — respondi, pegando minha bolsa. — Porque se eu entrar, senhor Meirelles, não vai ser como peça do seu tabuleiro.
Caio caminhou até a porta e a abriu para mim. O gesto poderia parecer educado em qualquer outro homem. Nele, parecia apenas mais uma forma de controle.
Antes de sair, parei ao lado dele.
— E mais uma coisa.
Ele me olhou de perto, calmo demais.
— Sim?
— Até as seis, eu ainda posso dizer não.
Caio inclinou levemente a cabeça.
— Pode.
Passei por ele e entrei no corredor sem olhar para trás. Só quando as portas do elevador se fecharam diante de mim, permiti que minha postura cedesse um pouco.
Meu celular vibrou antes mesmo de eu apertar o botão do térreo.
Uma mensagem de Caio.
"A versão revisada chegará em uma hora."
Logo abaixo, outra mensagem apareceu.
"E, Serena, eu não escolhi outra família porque não quero outra."
O elevador começou a descer.
E, pela primeira vez, eu não soube se aquilo era parte do contrato.
Ou o começo de um problema muito maior.
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