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A Noiva do Inimigo

Capítulo 14

Duarteally

A mensagem de Caio ficou aberta na tela durante todo o caminho até o térreo.

"E, Serena, eu não escolhi outra família porque não quero outra."

Li uma vez. Depois bloqueei o celular. Depois desbloqueei e li de novo, como se a frase fosse mudar de sentido se eu insistisse o suficiente. Não mudou. Continuou ali, curta, calculada e irritante, do jeito que tudo nele parecia ser.

Não era uma declaração.

Eu sabia disso.

Homens como Caio Meirelles não diziam coisas daquele tipo por impulso. Ele escolhia cada palavra como escolhia prédios, salas, horários e cláusulas: para ocupar espaço antes que alguém percebesse.

Quando cheguei ao estacionamento, respirei fundo antes de entrar no carro. Minhas mãos estavam firmes, mas havia uma tensão presa entre meus ombros que nem a postura mais bonita conseguiria esconder. Caio não tinha me dado uma resposta. Tinha me deixado com uma pergunta.

Por que eu?

Liguei o carro e segui para casa sem ligar o rádio. A cidade de domingo continuava calma, alheia ao fato de que minha vida estava sendo rearrumada por documentos, prazos e um homem que parecia conhecer o peso exato de cada silêncio.

Quando estacionei em frente de casa, Marina abriu a porta antes que eu chegasse ao primeiro degrau.

— Você demorou — ela disse.

— Boa tarde para você também.

Ela me olhou de cima a baixo, procurando rachaduras visíveis.

— Você está inteira?

— Fisicamente, sim.

— Detesto quando você responde só a parte fácil.

Passei por ela e entrei. Mamãe apareceu no corredor logo depois, segurando o celular com força demais.

— Como foi?

Coloquei a bolsa sobre o aparador e tirei o blazer, tentando ganhar alguns segundos antes de responder.

— Ele vai mandar a versão revisada do contrato em uma hora.

Marina fechou a porta atrás de mim.

— Então você não recusou.

Olhei para ela.

— Também não aceitei.

— Serena.

— Marina, eu negociei.

— Casamento não deveria ter essa palavra no meio.

— Esse não é um casamento normal.

Mamãe ficou quieta, mas a expressão dela mudou. Não parecia alívio. Parecia a confirmação de algo que ela já esperava e temia ao mesmo tempo.

Fui até a sala e sentei no sofá. Só então percebi o quanto estava cansada. Não era sono. Era como se os últimos dois dias tivessem sido longos demais para caber no corpo.

Marina sentou na poltrona à minha frente.

— Me conta tudo.

— Tudo é muita coisa.

— Então começa pela parte em que você não jogou café nele.

— Não tinha café.

— Que falha de planejamento.

Mamãe se aproximou devagar.

— Ele aceitou suas condições?

— Algumas. Outras, ajustou. E colocou preço em tudo, como era de se esperar.

Marina cruzou as pernas na poltrona, séria agora.

— Que preço?

Peguei o celular e abri minhas anotações.

— Se eu sair antes dos doze meses sem descumprimento comprovado da parte dele, o suporte emergencial termina em trinta dias. Se ele descumprir, a proteção financeira iniciada continua até as negociações urgentes serem concluídas.

Mamãe levou a mão à boca, pensativa.

— Isso é melhor do que eu imaginei.

— É ruim eu concordar? — Marina perguntou, olhando para ela. — Porque eu concordo odiando.

— É exatamente assim que eu estou considerando tudo — respondi.

Continuei passando pelas condições: Isaac fora de qualquer exposição, família sem obrigação de imagem, quartos separados, ausência de exigência íntima, meu nome preservado como Serena Avelar e participação nas decisões públicas envolvendo o acordo.

Quando terminei, Marina ficou alguns segundos sem falar. Isso, nela, era quase um evento histórico.

— Paulo precisa ler isso — ela disse por fim.

— Eu sei.

— Não como cunhado preocupado. Como advogado.

Olhei para mamãe.

— Eu pedi revisão por advogado antes de qualquer assinatura definitiva.

Mamãe assentiu, mas a preocupação continuou ali.

— Caio aceitou?

— Aceitou rápido demais.

Marina fez uma careta.

— Péssimo sinal.

— Foi o que eu pensei.

Meu celular vibrou sobre a mesa de centro, e nós três olhamos ao mesmo tempo.

Um e-mail novo.

Remetente: Equipe Jurídica Meirelles.

Assunto: Versão revisada — Contrato de União Civil e Aliança Patrimonial Estratégica.

Marina levantou as sobrancelhas.

— Uma hora?

Olhei para o horário no celular.

— Quarenta e dois minutos.

Mamãe respirou devagar.

— Ele estava preparado.

Abri o e-mail, e o anexo apareceu na tela com o nome do arquivo frio demais para algo que pretendia alterar uma vida inteira.

Contrato_Revisado_Avelar_Meirelles.pdf

Toquei no arquivo, mas não abri de imediato.

Marina se inclinou para frente.

— Serena?

Mantive o dedo parado sobre a tela.

— Ele não revisou um contrato em quarenta e dois minutos.

Mamãe ficou imóvel.

Marina olhou para o celular, depois para mim.

— Ele já tinha essa versão pronta.

A conclusão dela bateu exatamente onde a minha tinha batido.

Encarei o anexo na tela, sentindo uma raiva silenciosa crescer por baixo do cansaço.

Caio Meirelles não tinha esperado minhas condições.

Ele tinha previsto quase todas elas.

Marina pegou o celular da minha mão antes que eu tivesse tempo de decidir se abriria o arquivo ou jogaria o aparelho contra a parede.

— Eu vou mandar isso para o Paulo.

— Marina — chamei, estendendo a mão.

Ela afastou o celular do meu alcance sem culpa nenhuma.

— Você disse que queria advogado. Eu tenho um marido advogado. Pela primeira vez, meu casamento está sendo útil para algo além de dividir boletos e discutir qual série assistir.

— Que romântico — murmurei.

Mamãe sentou no sofá ao meu lado, os olhos ainda presos no nome do arquivo.

— Serena, é melhor ele ler mesmo.

Eu sabia disso. O problema era que saber não diminuía a sensação de estar sendo cercada por todos os lados. Caio tinha dito que mandaria a versão revisada em uma hora, mas o documento tinha chegado em quarenta e dois minutos, com minhas condições organizadas demais, encaixadas demais, previstas demais.

Marina enviou o arquivo para Paulo e, poucos segundos depois, o telefone dela tocou. Ela atendeu no viva-voz antes mesmo de eu protestar.

— Amor, eu preciso que você leia um contrato agora.

A voz masculina saiu pelo aparelho, ainda confusa.

— Boa tarde para você também, Marina.

— Sem tempo para educação. É urgente.

— Quando você diz urgente, é urgente de verdade ou urgente do tipo "a Serena respondeu alguém com ironia e agora precisamos analisar consequências"?

— Os dois — ela respondeu.

Passei a mão pelo rosto.

— Eu estou ouvindo, Paulo.

Houve uma pausa curta do outro lado.

— Oi, Serena. Pelo tom da Marina, imagino que o domingo de vocês esteja péssimo.

— Você imagina bem.

Marina se sentou na poltrona e colocou o celular sobre a mesa de centro.

— Eu te mandei um PDF. Preciso que você veja as cláusulas principais, principalmente saída, confidencialidade, exposição da família e qualquer coisa que pareça armadilha com perfume caro.

— "Armadilha com perfume caro" não é exatamente um termo jurídico — Paulo respondeu.

— Adapte.

Ouvi o som de teclado do outro lado da linha. Enquanto Paulo abria o documento, mamãe permaneceu quieta. Ela olhava para minhas mãos, e só então percebi que eu estava apertando a alça da bolsa como se ela fosse a única coisa firme naquela sala.

— Recebi — Paulo disse. — Vou dar uma olhada rápida agora, mas isso aqui precisa de análise com calma.

— Nós não temos calma — respondi.

— Imaginei. Qual é o prazo?

— Hoje às seis.

Do outro lado, Paulo soltou o ar devagar.

— Claro. Porque nada diz "boa-fé" como um prazo impossível.

Marina apontou para o celular.

— Está vendo? Eu casei bem.

— Não se empolga — falei.

Por alguns minutos, ouvimos apenas o barulho do teclado e alguns cliques. Eu tentei não olhar para o relógio, mas ele parecia estar em todos os lugares: na parede, na tela do celular, dentro da minha cabeça. Cada minuto me aproximava das seis e me afastava da versão de mim que ainda podia fingir que aquilo era recusável.

Paulo voltou a falar com a voz mais séria.

— Serena, o contrato está muito bem escrito.

— Isso é bom ou ruim?

— Os dois. Bom porque suas condições aparecem de forma clara. Ruim porque a estrutura protege bastante o lado dele.

Marina se inclinou para frente.

— O quanto é "bastante"?

— O suficiente para eu não gostar dele sem nem conhecer.

— Bem-vindo ao grupo — ela disse.

Paulo continuou:

— A cláusula de saída existe, mas o custo emocional e público ficaria com você. Financeiramente, ele deixa uma margem de segurança para sua família, principalmente se houver descumprimento da parte dele. Mas, se você desistir sem justificativa contratual, ele pode se retirar com pouca exposição.

Olhei para o celular.

— Ou seja, se eu entrar, sair vira outro espetáculo.

— Em termos menos dramáticos, sim — Paulo respondeu. — Mas a ideia é essa.

Mamãe fechou os olhos por um instante.

— E a proteção emergencial?

Paulo demorou alguns segundos antes de responder.

— Essa parte é forte. Se ele cumprir o que está escrito, ganha tempo real para vocês. Não resolve tudo, mas impede que algumas coisas avancem agora.

Era exatamente o que eu temia ouvir.

Não a certeza de que Caio era confiável.

A confirmação de que a armadilha funcionava.

Marina olhou para mim, e pela primeira vez desde que tudo começou, ela não tinha uma piada pronta.

— Serena...

Peguei o celular da mesa e encarei o arquivo aberto.

— Continua lendo, Paulo.

Minha voz saiu firme, mas por dentro eu senti a decisão se aproximando como uma porta que eu não queria abrir.

E, ainda assim, minha mão já estava na maçaneta.

Paulo continuou lendo por mais alguns minutos.

A sala ficou quieta de um jeito estranho. Marina não fazia piada. Mamãe não tentava justificar nada. Eu apenas observava o celular sobre a mesa, como se a voz de Paulo pudesse transformar aquele contrato em outra coisa se lesse por tempo suficiente.

Não transformou.

— Tem mais uma coisa — ele disse.

Marina se endireitou na poltrona.

— Lá vem.

— A cláusula de confidencialidade é pesada, mas esperada. O que me chama atenção é a parte sobre narrativa pública. Ele não obriga você a mentir diretamente, Serena, mas limita bastante o que pode ser dito.

Peguei o celular e aproximei a tela.

— Traduzindo?

— Traduzindo, vocês vão precisar parecer alinhados mesmo quando não estiverem. Qualquer crise pública entre os dois pode afetar o suporte financeiro e a imagem do acordo.

Soltei uma risada baixa.

— Maravilhoso. Além de noiva contratual, eu ganho aulas de teatro.

— Pelo valor envolvido, imagino que ele espere uma atuação convincente — Paulo respondeu.

Marina olhou para o celular.

— Paulo, amor, não ajuda.

— Estou tentando ser honesto.

— Continue sendo, mas com menos vontade de me fazer odiar o mundo.

Apesar da tensão, quase sorri. Quase. Mas o relógio na parede marcava pouco depois das duas da tarde, e as seis pareciam se aproximar rápido demais.

— Paulo — chamei, interrompendo a troca dos dois. — Se fosse você, assinaria?

Mamãe olhou para mim na mesma hora. Marina também.

Do outro lado da linha, Paulo ficou em silêncio por alguns segundos. Eu não gostei da demora. Respostas difíceis quase sempre vinham depois de silêncios educados.

— Como advogado, eu diria para negociar mais tempo.

— E se não houver mais tempo?

— Então eu diria para assinar apenas se você entender que isso não é uma solução. É uma contenção de danos.

A frase encaixou no peito com um peso desconfortável.

Contenção de danos.

Era uma forma feia de dizer salvação temporária. Talvez por isso parecesse tão verdadeira.

— Ele pode salvar o Grupo Avelar? — perguntei.

— Salvar é uma palavra grande demais — Paulo respondeu. — Mas, pelo que está no contrato, ele pode impedir que algumas perdas aconteçam agora. Pode comprar tempo. E tempo, nesse momento, parece ser o que vocês mais precisam.

Mamãe levou a mão aos olhos, mas não chorou. Marina ficou imóvel, encarando o chão como se odiasse concordar com cada palavra.

Eu me levantei e caminhei até a janela. Do lado de fora, o domingo continuava claro, quase bonito, como se não tivesse nenhuma obrigação de combinar com a minha vida.

— Serena — Marina chamou, mais baixo.

Virei para ela.

— Eu sei.

— Você não precisa decidir sozinha.

Olhei para mamãe. Depois para o celular, onde Paulo ainda esperava do outro lado da linha. Pela primeira vez em muito tempo, eu quis acreditar que aquilo era verdade.

Mas a assinatura seria minha.

O nome no contrato era meu.

E, quando Caio Meirelles aparecesse ao meu lado, seria a minha mão que ele estenderia para o mundo ver.

Respirei fundo e peguei o celular.

— Paulo, manda suas observações por escrito. Tudo que você acha que precisa ser ajustado.

— Eu faço isso agora.

— Marina, fica com mamãe.

Ela se levantou.

— Onde você vai?

Peguei a bolsa no sofá e coloquei o celular dentro.

— Dar uma resposta ao Caio.

Mamãe deu um passo na minha direção.

— Serena, você já decidiu?

Parei perto da porta e olhei para as duas.

A resposta ainda queimava na minha garganta, pesada demais para ser dita em voz alta naquela sala.

— Eu decidi que ele vai ouvir de mim.

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