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A Noiva do Inimigo

Capítulo 15

Duarteally

Saí de casa antes que alguém tentasse me impedir com cuidado.

Era sempre pior quando faziam isso com cuidado. Se Marina gritasse, eu saberia responder. Se mamãe chorasse, talvez eu soubesse ficar irritada. Mas quando as duas apenas me olhavam como se eu estivesse prestes a atravessar uma rua movimentada sem perceber os carros, alguma coisa dentro de mim ficava pequena demais.

Entrei no carro e fechei a porta. Por alguns segundos, não liguei o motor. Apenas fiquei ali, com as mãos no volante e a bolsa no banco ao lado, sentindo o peso do celular dentro dela como se Caio Meirelles estivesse ocupando espaço até nos objetos que não pertenciam a ele.

Paulo tinha acabado de mandar as observações por escrito. A maioria confirmava o que ele já havia dito: o contrato era perigoso, mas funcional. Frio, mas eficiente. Injusto em muitos pontos, mas não descuidado. Caio não tinha deixado buracos. Só portas estreitas demais para alguém passar sem se machucar.

Abri a conversa dele e encarei a última mensagem.

"E, Serena, eu não escolhi outra família porque não quero outra."

Dessa vez, não reli tentando encontrar outro sentido. Apertei o botão de chamada antes que a coragem virasse pensamento demais.

Ele atendeu no segundo toque.

— Serena.

Não era uma pergunta. Era quase como se já soubesse.

— O senhor sempre atende rápido assim ou estava esperando?

— As duas opções te incomodam?

— A sua existência tem feito um trabalho excelente nesse sentido.

Do outro lado da linha, houve um silêncio breve. Não vazio. Eu conseguia imaginar a expressão dele, aquela calma irritante de quem não se ofendia porque preferia observar.

— Já tomou sua decisão? — Caio perguntou.

Apertei o volante com uma das mãos.

— Eu disse que o senhor ouviria de mim.

— Estou ouvindo.

— Não pelo telefone.

— Então venha ao prédio.

Soltei uma risada baixa.

— Claro. Porque o senhor estala os dedos e todo mundo atravessa a cidade?

— Não estalei os dedos.

— Ainda.

— Você me ligou, Serena.

A resposta veio simples, e isso me irritou porque era verdade. Eu tinha ligado. Eu tinha saído de casa. Eu estava ali, dentro do carro, com o contrato revisado na bolsa e um prazo correndo contra mim. Ele não precisava me arrastar para lugar nenhum. Só precisava ficar parado enquanto a realidade me empurrava.

— Eu vou até aí — falei, odiando cada palavra.

— Ótimo.

— Não se anime. Não é uma vitória.

— Ainda não chamei de vitória.

— Mas pensou.

— Eu penso muitas coisas que não digo.

— Que assustadoramente prudente da sua parte.

Caio ficou em silêncio por um segundo, e quando respondeu, sua voz estava mais baixa.

— Traga as observações do seu advogado.

— Já mandei para sua equipe.

— Eu pedi para trazer.

Fechei os olhos por um instante, tentando lembrar que desligar na cara dele não ajudaria minha família.

— O senhor gosta muito de mandar.

— E você gosta muito de transformar instruções simples em disputas.

— Porque, vindas do senhor, raramente parecem simples.

— Então trate como negociação.

Olhei para a rua tranquila à frente. Era domingo, o céu ainda estava claro e, em algum lugar da casa atrás de mim, Isaac provavelmente estava acordando sem imaginar que o futuro dele cabia em parte naquela conversa.

— Caio — falei, e o nome dele saiu mais direto do que eu gostaria.

Do outro lado, ele não respondeu de imediato.

Eu odiei perceber que ele tinha notado.

— Não me faça perder tempo — continuei, recuperando a firmeza. — Se eu for até aí, é para resolver.

— Então venha pronta para assinar.

Meu estômago apertou.

— Eu não disse que aceitei.

— Não precisava.

A frase me atingiu com uma precisão cruel. Por alguns segundos, não encontrei uma resposta que não soasse fraca demais. Caio não estava comemorando, não estava pressionando em voz alta, não estava fazendo ameaça. Era isso que tornava tudo pior. Ele apenas dizia a verdade como se ela já tivesse sido escrita antes de mim.

— O senhor está muito confiante — murmurei.

— Não. Estou atento.

— À minha família?

— À sua escolha.

— Que conveniente.

— Escolhas costumam ser inconvenientes para quem precisa fazê-las.

Apertei os lábios, sentindo a raiva misturar com aquela sensação horrível de estar sendo entendida por alguém que eu não queria que me entendesse.

— Chego em vinte minutos — falei.

— Estarei esperando.

— Disso eu nunca duvidei.

Desliguei antes que ele dissesse mais alguma coisa. O silêncio do carro pareceu maior depois da voz dele, e isso me irritou quase tanto quanto a conversa.

Liguei o motor e saí da frente de casa.

No caminho, as observações de Paulo permaneceram abertas no celular preso ao suporte, mas eu não precisava reler nenhuma. Já sabia o suficiente. Caio tinha o contrato. Tinha o prazo. Tinha a vantagem.

E eu ainda tinha uma coisa.

A minha resposta.

Quando cheguei ao prédio, a recepcionista não perguntou meu nome dessa vez. Apenas me entregou o cartão de acesso.

— Último andar, senhorita Avelar.

Apertei o cartão entre os dedos.

— Ele avisou?

O sorriso dela permaneceu impecável.

— O senhor Meirelles avisou que a senhora voltaria.

Por um instante, senti vontade de rir.

Não porque fosse engraçado.

Mas porque Caio não estava apenas esperando.

Ele tinha certeza.

O elevador parecia menor naquela segunda subida.

Talvez porque, dessa vez, eu sabia exatamente para onde estava indo. Na primeira, ainda existia uma parte minha tentando acreditar que aquilo era apenas uma conversa difícil. Agora, o contrato revisado estava na minha bolsa, as observações de Paulo no celular e a sensação de que Caio tinha previsto minha volta antes mesmo de eu decidir sair de casa.

Quando as portas se abriram no último andar, a mesma secretária me aguardava no corredor.

— Senhorita Avelar.

— Ele também avisou que eu chegaria irritada ou essa parte ficou de fora? — perguntei.

Ela piscou uma vez, surpresa, mas recuperou o sorriso rápido.

— O senhor Meirelles pediu para encaminhá-la diretamente.

— Claro que pediu.

Dessa vez, caminhei pelo corredor sem prestar tanta atenção nas paredes de vidro ou na vista. O cenário ainda era dele, mas eu me recusei a agir como visita intimidada. Se Caio queria que eu entrasse naquele acordo, teria que entender que eu não atravessaria a porta de cabeça baixa.

A secretária abriu a sala, e eu entrei antes do anúncio completo, como tinha feito da primeira vez.

Caio estava atrás da mesa, lendo alguma coisa no tablet. Ergueu os olhos quando me viu, sem demonstrar pressa ou surpresa.

— Você voltou.

Fechei a porta atrás de mim.

— Pelo visto, o senhor já sabia.

— Eu calculei.

— Que palavra charmosa para "presumi que eu não teria escolha".

Ele deixou o tablet sobre a mesa.

— Você sempre tem escolha, Serena.

Soltei uma risada curta, sem humor.

— O senhor diz isso com uma tranquilidade quase artística.

— Porque é verdade.

— Não. Porque o senhor sabe que uma escolha pode ser tão cara que deixa de parecer escolha.

Caio ficou em silêncio por um instante. Não pareceu incomodado. Pareceu satisfeito por eu ter dito em voz alta exatamente o que os dois sabíamos.

— Trouxe as observações do advogado? — ele perguntou.

Tirei o celular da bolsa e coloquei sobre a mesa.

— Enviei para sua equipe. Mas imagino que já tenha recebido.

— Recebi.

— E?

— A maior parte é aceitável.

Cruzei os braços.

— A maior parte?

Caio levantou-se e pegou uma pasta fina sobre a lateral da mesa. Caminhou até mim, mas parou a uma distância educada demais para parecer casual. Entregou-me a pasta.

— Ajustei os pontos necessários.

Abri a primeira página e passei os olhos pelas cláusulas destacadas. As alterações de Paulo estavam ali. Nem todas do jeito que eu gostaria, mas ali. Saída. Nome. Limites de imagem. Isaac fora de qualquer exposição. Quartos separados. Nada de obrigação íntima. Tudo organizado com uma precisão que deveria me tranquilizar, mas apenas reforçava a sensação de que Caio era perigoso justamente porque sabia fazer uma armadilha parecer razoável.

— Você aceitou rápido — falei, sem olhar para ele.

— Quando uma exigência faz sentido, não perco tempo recusando por orgulho.

— Engraçado. Eu juraria que orgulho fosse um dos seus setores mais lucrativos.

O canto da boca dele se moveu.

— Implicância também parece ser uma especialidade sua.

Fechei a pasta e ergui os olhos.

— É defesa pessoal.

— Contra mim?

— Principalmente.

Caio não sorriu dessa vez. O olhar dele desceu por um segundo até a pasta entre minhas mãos, depois voltou ao meu rosto.

— Então talvez seja útil manter.

A resposta me pegou desprevenida por ser calma demais. Não gentil. Caio não era gentil. Mas havia alguma coisa naquela frase que parecia reconhecer que eu precisava de armas, mesmo que fosse contra ele.

Não gostei disso.

— Não tente parecer compreensivo — falei.

— Eu não estava tentando.

— Ótimo. Seria péssimo para sua imagem.

— Minha imagem sobrevive a coisas piores.

— Imagino.

Ele caminhou até a mesa e pegou uma caneta. Era preta, pesada, bonita demais. Colocou-a sobre o contrato, alinhada à linha de assinatura.

O gesto foi pequeno.

Mesmo assim, o ar mudou.

— Se ainda quiser dizer não — Caio disse, olhando para mim — diga agora.

A frase deveria soar como liberdade. Mas, vinda dele, parecia o último passo antes de fechar uma porta.

Olhei para a linha em branco. Meu nome estava impresso ali, esperando a minha mão transformar possibilidade em realidade.

Serena Avelar.

Ainda meu.

Por enquanto.

— Não faça parecer que está me dando uma saída — respondi.

Caio sustentou meu olhar.

— Estou dando uma escolha.

— Não. Está me dando uma caneta.

Ele não respondeu.

E talvez fosse melhor assim.

Peguei a caneta da mesa, sentindo o peso frio contra meus dedos. Por um segundo, pensei em Isaac, em Marina, em mamãe e em tudo que o nome Avelar ainda tentava manter de pé com as poucas forças que restavam.

Caio observava em silêncio.

Eu odiei o fato de ele não precisar dizer mais nada.

Abaixei a caneta até o papel.

Antes que a ponta tocasse a linha, meu celular vibrou dentro da bolsa.

Os olhos de Caio foram para a bolsa.

Os meus também.

Eu não sabia quem era.

Mas, naquele instante, qualquer interrupção parecia uma última tentativa do mundo de me perguntar se eu tinha certeza.

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