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A Noiva do Inimigo

Capítulo 16

Duarteally

A caneta ficou suspensa sobre o papel.

Por um segundo, o som do celular vibrando dentro da bolsa pareceu mais alto do que deveria. Olhei para a bolsa, depois para a linha de assinatura, e odiei a sensação de alívio que tentou nascer dentro de mim.

Alívio era perigoso.

Alívio fazia parecer que ainda havia uma saída simples.

Caio não se moveu. Apenas olhou para a bolsa com a mesma calma com que observava todo o resto.

— Vai atender? — ele perguntou.

— O senhor está permitindo?

O olhar dele voltou para mim.

— Estou perguntando.

— Com o senhor, quase sempre parece a mesma coisa.

Caio inclinou levemente a cabeça, como se aceitasse a provocação sem esforço.

— Então atenda antes que eu mude o tom.

Deixei a caneta sobre a mesa e peguei o celular. Era Marina.

Claro que era.

Atendi sem me afastar, porque sair daquela sala para respirar parecia ceder território demais.

— Marina.

— Você assinou? — ela perguntou, sem cumprimento.

Olhei para o contrato aberto diante de mim.

— Ainda não.

Do outro lado da linha, ouvi uma respiração pesada. Marina devia estar andando de um lado para o outro, porque a voz dela vinha com aquele ritmo inquieto que eu conhecia bem.

— Paulo terminou de revisar as últimas alterações.

— E?

— Ele disse que, juridicamente, está dentro do que vocês discutiram. Não está bonito, não está justo e continua parecendo um sequestro com papel timbrado, mas está coerente.

Fechei os olhos por um instante.

— Que ótimo.

— Serena, eu preciso te perguntar uma coisa, e você precisa responder de verdade.

Abri os olhos e encontrei Caio me observando. Ele não fingia desinteresse. Também não tentava ouvir de forma discreta. Apenas esperava, como se até a ligação fizesse parte de um processo que ele já tinha considerado.

— Pergunta — falei.

A voz de Marina ficou mais baixa.

— Você está fazendo isso porque quer ou porque acha que não tem escolha?

A pergunta atravessou a sala com mais força do que eu esperava. Meu primeiro impulso foi responder que ninguém queria aquilo. Que era óbvio. Que ela não precisava me fazer dizer em voz alta uma coisa que já estava escrita em cada página daquele contrato.

Mas Marina não estava perguntando sobre desejo.

Estava perguntando sobre consciência.

Olhei para Caio. Ele sustentou meu olhar, frio e atento, como se também quisesse saber qual versão da resposta eu teria coragem de dar.

— Eu estou fazendo porque entendi a escolha — respondi.

Marina ficou quieta.

— Isso não é a mesma coisa que querer.

— Eu sei.

— E você vai conseguir olhar para ele todos os dias sem querer jogar alguma coisa na cabeça dele?

Caio ergueu uma sobrancelha, porque ouviu. Ou porque adivinhou. Com ele, as duas possibilidades eram igualmente irritantes.

— Provavelmente não — respondi.

— Ótimo. Ainda é você.

Quase sorri, mas a expressão não chegou inteira.

— Marina...

— Eu sei. Você precisa decidir. Só queria ouvir sua voz antes.

Apertei o celular com mais força.

— Cuida da mamãe.

— Cuido. E, Serena?

— O quê?

— Não deixa ele pensar que te comprou.

Olhei para a caneta sobre a mesa. Depois para Caio.

— Ele pode pensar o que quiser.

Marina soltou um suspiro curto.

— Essa resposta me deixou preocupada e orgulhosa ao mesmo tempo.

— Então estamos equilibradas.

Desliguei antes que a voz dela fizesse minha firmeza vacilar. Coloquei o celular dentro da bolsa e voltei para o contrato.

Caio continuava no mesmo lugar.

— Sua irmã não aprova — ele disse.

— Minha irmã tem bom senso.

— E você?

Peguei a caneta outra vez.

— Eu tenho prazo.

A resposta apagou qualquer traço de provocação do rosto dele. Por um instante, a sala pareceu mais fria.

— Você pode dizer não — Caio falou.

Soltei uma risada baixa, sem humor.

— O senhor gosta de repetir isso como se tornasse a frase mais verdadeira.

— Porque é verdadeira.

— Não, Caio. Verdadeiro é que se eu disser não, minha família perde tempo. Perde negociação. Perde fôlego. Talvez perca mais do que eu consigo calcular agora. Então não me ofereça uma liberdade que custa a queda de todo mundo ao meu redor.

Ele ficou em silêncio.

Dessa vez, eu continuei antes que ele transformasse minha raiva em análise.

— Eu vou assinar. Mas não confunda isso com rendição.

Caio deu um passo na minha direção, parando do outro lado da mesa. Perto o suficiente para ocupar o espaço, longe o suficiente para manter a aparência de controle.

— Eu nunca confundo resistência com rendição, Serena.

O modo como ele disse meu nome fez minha mão apertar a caneta.

— Então aprenda outra coisa — falei, inclinando-me sobre o contrato. — Se eu entrar nesse acordo, vou entrar lembrando todos os dias que fui colocada contra a parede.

A ponta da caneta tocou o papel.

— E eu vou lembrar todos os dias quem colocou a parede ali.

Assinei meu nome antes que ele respondesse.

Serena Avelar.

A tinta preta atravessou a linha em um movimento rápido, limpo e definitivo. Quando terminei, fiquei olhando para a assinatura como se ela pertencesse a outra pessoa.

Caio pegou o contrato, virou a página seguinte e assinou logo abaixo do próprio nome.

Caio Meirelles.

Sem hesitar.

Sem tremor.

Sem nenhuma rachadura aparente.

Depois, ele fechou a pasta com cuidado e ergueu os olhos para mim.

— Agora precisamos falar sobre o anúncio.

Meu estômago afundou.

— Que anúncio?

Caio deslizou outro documento pela mesa.

— O noivado será comunicado ainda hoje.

Encarei a folha.

E entendi, tarde demais, que a assinatura não tinha sido o fim da armadilha.

Tinha sido apenas a entrada.

Fiquei olhando para o documento que Caio tinha acabado de colocar diante de mim.

Comunicado oficial.

As duas palavras no topo da página pareciam mais pesadas do que a assinatura que eu tinha acabado de entregar. Talvez porque assinar ainda tivesse acontecido dentro daquela sala, longe de olhares, com a ilusão frágil de que aquilo continuava sendo privado.

O anúncio não.

O anúncio transformava a minha decisão em notícia.

— Hoje? — perguntei, erguendo os olhos para ele.

Caio permaneceu de pé, do outro lado da mesa.

— Hoje.

— Eu acabei de assinar.

— Exatamente por isso.

Soltei uma risada baixa, sem humor.

— O senhor não perde nem cinco minutos tentando parecer menos insuportável?

— Não quando cinco minutos podem custar caro.

— Para quem?

— Para os dois.

A resposta dele veio calma, mas não suave. Era sempre assim. Caio não precisava levantar a voz para fazer uma frase pesar. Bastava escolher o momento certo e deixar que o resto da sala obedecesse.

Peguei a folha e li as primeiras linhas.

"O Grupo Meirelles e a família Avelar comunicam, com satisfação, o noivado entre Caio Meirelles e Serena Avelar..."

Parei no meio da frase.

— Com satisfação? — repeti.

Caio inclinou levemente a cabeça.

— É um comunicado público.

— Não uma peça de ficção.

— Para o público, diferença é detalhe.

— Para mim, não.

Ele estendeu a mão.

— Posso?

Entreguei a folha antes que amassasse o papel por puro impulso. Caio pegou uma caneta, riscou a expressão com satisfação e escreveu algo acima. Depois virou o documento de volta para mim.

Li a alteração.

"Comunicam o noivado entre Caio Meirelles e Serena Avelar."

Sem entusiasmo. Sem afeto inventado. Só a frase nua, fria e direta.

— Melhor? — ele perguntou.

— Menos ofensivo.

— Vou considerar um avanço.

— Considere em silêncio.

Dessa vez, o canto da boca dele se moveu. Um quase sorriso. Pequeno demais para ser caloroso, irritante demais para passar despercebido.

Continuei lendo. O texto falava sobre união entre famílias, continuidade, confiança no futuro do Grupo Avelar e fortalecimento de laços institucionais. Tudo bonito o suficiente para fazer qualquer pessoa acreditar que aquilo tinha nascido de uma escolha elegante, não de uma negociação feita com prazo, dívida e pressão.

— Minha mãe precisa saber antes de isso sair — falei.

— Natural.

— Marina também.

— A sua família será avisada antes da publicação.

Ergui os olhos.

— Por mim.

Caio me observou por alguns segundos.

— Por você — concordou.

A facilidade da resposta me incomodou menos dessa vez. Talvez porque, depois da assinatura, eu estivesse começando a entender a lógica dele. Caio cedia quando a concessão não ameaçava o centro do controle. E o centro, naquele momento, era simples: o anúncio sairia. Com ou sem meu conforto.

— Nada de fotos hoje — continuei.

— Haverá uma nota sem imagem.

— E nenhuma declaração inventada em meu nome.

— O comunicado será conjunto, sem aspas pessoais.

— Ótimo.

Caio apoiou as mãos na borda da mesa.

— Amanhã precisaremos de uma aparição pública.

Meu corpo ficou rígido antes que eu pudesse disfarçar.

— Amanhã?

— Um almoço reservado com dois investidores e a assessoria de imprensa. Controlado, curto e suficiente para sustentar a notícia.

— O senhor disse aparição pública. Isso parece reunião.

— Para você, será uma reunião. Para eles, será prova.

— Prova de quê?

— De que você não foi arrastada.

A frase entrou no espaço entre nós com uma precisão incômoda.

Cruzei os braços, tentando não deixar o impacto aparecer. Era exatamente isso que eu tinha sido, de certo modo. Não pela mão dele, não fisicamente, não de uma forma que alguém pudesse apontar e condenar com facilidade. Mas eu tinha sido empurrada pela urgência, pelos prazos, pelas dívidas, por uma realidade que ele soube usar melhor do que qualquer pessoa.

— E como o senhor espera provar isso? — perguntei.

Caio sustentou meu olhar.

— Você vai entrar ao meu lado.

— Só isso?

— Vai sorrir quando for necessário, responder pouco e não parecer que quer me matar.

— Ambicioso.

— Eu gosto de desafios.

— Então talvez eu faça questão de ser um enorme.

Ele se aproximou o bastante para pegar o contrato sobre a mesa, mas não invadiu meu espaço. Essa distância controlada era uma das coisas mais irritantes nele: Caio parecia sempre saber até onde ir para dominar uma sala sem dar motivo claro para ser acusado disso.

— Serena — ele disse, guardando os documentos na pasta. — A partir de agora, quando estivermos em público, as pessoas vão procurar rachaduras em você, em mim e nesse acordo.

— E o senhor quer que eu vire parede.

— Quero que você não entregue a elas uma porta aberta.

Olhei para o contrato já fechado.

— O senhor quer muita coisa.

— E você aceitou o suficiente para começar.

A resposta me calou por meio segundo.

Não porque eu não tivesse o que dizer.

Mas porque era verdade.

Caio pegou o celular e digitou alguma coisa. Poucos segundos depois, o meu vibrou dentro da bolsa.

— A versão final do comunicado está com você — ele disse. — Tem quinze minutos para revisar antes de seguir para a assessoria.

Peguei o celular devagar.

— Quinze minutos?

— Você pediu para participar das decisões públicas.

Ele encontrou meu olhar com uma calma quase cruel.

— Bem-vinda ao acordo, Serena.

Quinze minutos.

Olhei para o celular com vontade de perguntar se aquilo era uma piada, mas Caio não tinha expressão de quem fazia piadas. Pelo menos não das que divertiam alguém além dele mesmo.

Abri o arquivo enviado e li o comunicado com atenção. O texto estava melhor do que a primeira versão, mas ainda carregava aquela elegância fria de assessoria: palavras polidas demais para uma situação que não tinha nada de bonito. União estratégica. Confiança. Continuidade. Duas famílias. Futuro.

Tudo parecia aceitável o suficiente para ser perigoso.

— Tire "duas famílias" — falei, sem erguer os olhos.

Caio estava perto da mesa, organizando os documentos assinados em uma pasta.

— Por quê?

— Porque minha família não assinou nada. Eu assinei.

Ele parou por um segundo, depois olhou para mim.

— O acordo afeta todos vocês.

— Afetar não é a mesma coisa que consentir.

Caio me observou em silêncio, e eu aproveitei para continuar antes que ele transformasse aquilo em argumento.

— Minha mãe não vai aparecer como parte feliz de uma decisão que ela não tomou. Marina muito menos. Isaac nem entra nessa frase.

— Você está sendo literal demais para um comunicado público.

— E o senhor está sendo conveniente demais para alguém que acabou de aceitar minhas condições.

O canto da boca dele se moveu de leve.

— Está aprendendo a usar o contrato contra mim?

— Estou apenas lendo as letras pequenas do homem que escreveu.

Caio caminhou até mim e estendeu a mão para pegar o celular. Entreguei o aparelho com relutância, observando enquanto ele lia o trecho. Ele não se aproximou além do necessário, mas a presença dele tinha essa capacidade irritante de ocupar espaço mesmo à distância.

— "Caio Meirelles e Serena Avelar comunicam o noivado" — ele leu em voz baixa. — Sem menção direta às famílias.

— Melhor.

— Mais frio.

— Apropriado.

Ele ergueu os olhos.

— Você sabe que as pessoas vão preencher as lacunas.

— As pessoas sempre fazem isso. Pelo menos não vamos entregar a mentira pronta.

Caio digitou a alteração e devolveu o celular.

— Feito.

Peguei o aparelho e revisei de novo. O comunicado continuava sendo uma peça cuidadosamente montada, mas agora parecia menos invasivo. Ainda me desagradava. Só que, naquele dia, eu estava começando a entender que talvez não houvesse mais nada que me agradasse de verdade.

— Eu vou ligar para minha mãe antes disso sair — falei.

— Tem dez minutos.

Levantei o olhar devagar.

— O senhor realmente precisa transformar tudo em contagem regressiva?

— Hoje, sim.

— Amanhã também?

— Provavelmente.

— Que relacionamento promissor.

Caio sustentou meu olhar, e alguma coisa na sala mudou de lugar sem que nada se movesse. A palavra relacionamento tinha saído por ironia, mas ficou entre nós com um peso desconfortável. Não era romance. Não era afeto. Era a constatação brutal de que, a partir daquele momento, haveria um nós para o mundo, mesmo que dentro daquela sala só existisse disputa.

Desviei primeiro porque meu celular ainda estava na minha mão e eu precisava fazer uma ligação antes que aquela percepção me irritasse mais do que o próprio contrato.

Mamãe atendeu no segundo toque.

— Serena?

A voz dela veio apertada, como se já soubesse.

Olhei para a janela atrás de Caio. A cidade continuava inteira lá fora, indiferente.

— Eu assinei, mamãe.

Do outro lado, houve silêncio. Não um silêncio vazio. Um silêncio cheio de culpa, alívio e tristeza, tudo misturado de um jeito que nenhuma de nós conseguiria separar naquele momento.

— Filha...

— Não fala nada agora — pedi, mantendo a voz baixa. — Eu só preciso que você escute.

Caio permaneceu perto da mesa, quieto. Eu sabia que ele ouvia. Não de forma grosseira, não se inclinando para pegar cada palavra, mas ouvia porque aquela sala era dele e, nela, até o silêncio parecia trabalhar a favor dele.

— O comunicado vai sair hoje — continuei. — Em poucos minutos.

Mamãe respirou fundo.

— Hoje?

— Sim.

— Serena, você quer que eu vá até aí?

— Não. Eu quero que você esteja com a Marina quando sair. E não deixa Isaac ver nada antes da gente explicar.

— Ele ainda está no quarto.

Fechei os olhos por um instante, tentando segurar a parte de mim que queria pedir desculpa a um menino que nem sabia que estava sendo protegido.

— Então mantém assim por enquanto.

Mamãe demorou a responder.

— Você está bem?

Olhei para Caio. Ele me observava com aquela calma impossível de atravessar.

— Ainda não sei.

A resposta saiu honesta demais. Talvez por isso tenha doído.

— Eu vou para casa depois — falei. — A gente conversa.

— Serena...

— Mamãe, por favor.

Ela entendeu. Ou apenas aceitou porque não havia escolha. Essa parecia ser a frase invisível do dia.

Desliguei e fiquei alguns segundos com o celular na mão.

Caio foi o primeiro a falar.

— Você protege todos eles.

Guardei o celular na bolsa.

— E o senhor usa isso muito bem.

Ele não negou.

A ausência de negação foi quase uma resposta.

— Envie — falei.

Caio pegou o próprio celular.

— Tem certeza?

Soltei uma risada baixa, seca.

— Agora o senhor pergunta?

— Procedimento.

— Então proceda.

Ele digitou uma única mensagem e colocou o celular sobre a mesa.

Poucos segundos depois, o meu vibrou.

Publicação agendada.

Horário: 17h45.

Quinze minutos antes do prazo final.

Encarei a tela, sentindo a assinatura no contrato e o anúncio no celular se fecharem ao mesmo tempo ao meu redor.

Caio Meirelles tinha me dado uma escolha.

E depois marcado o horário exato em que o mundo saberia qual ela foi.

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